A eutanásia

A palavra eutanásia deriva de dous vocábulos gregos: eu, que significa bem, bom, e thanatos, que significa morte. Portanto, o vocábulo completo significaria boa morte ou bem morrer, uma morte aprazível, tranqüila, digna, diríamos hoje. Trata-se duma situação relacionada com a morte e na que o paciente sofre uma incapacidade total ou está submetido a doenças atrozes e se perderam totalmente as esperanças de vida. Nestes casos extremos e suficientemente contrastados, o que cumpre é decidir se se lhe subministram ao paciente, que voluntariamente o pede, um tratamento que encurta o momento da morte por considerar que a vida deixou de ser uma vida digna, uma vida humana.

Perante esta questão enfrentam-se dous modelos éticos:

O das éticas heterônomas, ou seja, os modelos éticos no que as normas lhe são impostas ao sujeito por outras pessoas ou instituições, sejam divinas, e, portanto, religiosas, ou humanas, que mantêm infantilizado o ser humano e, por isso, tem que receber doutros os preceitos morais; e o das éticas autônomas, aquelas nas que as normas são tomadas polos indivíduos isoladamente ou integrados em grupos de convivência social ou comunidades, que se auto-determinam a respeito duma coletividade mais ampla. A autodeterminação das pessoas individuais e dos grupos é uma caraterística distintiva da modernidade, que arranca com Kant que concebe o homem como um membro legislador universal num possível reino dos fins, de fins objetivos que não são meios para outra cousa senão fins em todo querer, auto-legislação que foi assumida polo clima cultural dos nossos dias. A autodeterminação a respeito do próprio corpo é especialmente virulenta nas mulheres dos nossos dias, cansas de constatar que os homens decidem por elas e as submetem a uma violência física que termina muitas vezes com a sua vida.

Entre as éticas heterônomas focarei a ética católica, se bem cumpre sublinhar que as demais religiões também se opõem à eutanásia, ainda que por motivos distintos. Eu creio detectar nesta ética uma evolução restritiva a partir do concílio Vaticano II. Na Universidade Pontifícia de Salamanca lecionava-nos aulas de ética Antônio Peinador, de tendência rigorista, que assistiu em qualidade de perito ao citado concílio. Depois de falar dos estupefacientes, manifesta que a eutanásia é lícita sempre que o paciente o exija veementemente: “De aqui que a eutanásia não é lícita quando o enfermo não está bem preparado para morrer. Mas se se trata dum enfermo que já proveu suficientemente à sua vida espiritual, deve dizer-se que é lícita, se o enfermo o exige de boa fé e se tem dores insuperáveis ou máximos. Isto ter-se-á em conta principalmente se existe perigo de que o enfermo caia em estado de desesperação” (375).

O concílio Vaticano II decretou que “todo o que se opõe à vida, como toda classe de homicídio, o genocídio, o aborto, e eutanásia e incluso o suicídio deliberado… todas estas praticas e outras análogas são em verdade infames” (Gaudium ET Spes 27). Manifestar que estas práticas são infames é mais bem uma manifestação dum sentimento de rejeição que a exposição duma razão ética pola qual é infame. No Catecismo de 1998 diz-se que “A eutanásia voluntária, sejam quais for as formas e os motivos, constitui um assassinato. É gravemente contrária à dignidade da pessoa humana e ao respeito ao Deus vivente, o seu criador” (2324), mas no caso de assassinato um dá-lhe morte a outro em contra da vontade deste e com a finalidade de produzir-lhe um dano irreparável, enquanto que na eutanásia uma pessoa colabora na morte de outra em conivência com esta e para remediar dores insofríveis, e, portanto, creio que não se soluciona este problema utilizando qualificativos tremendistas e assimilando a pessoas bem intencionadas que pretendem ajudar a outros a morrer dignamente com os maiores delinquentes; não explicam porque é uma falta de respeito a Deus, e inclusive uma pessoa ousada poderia dizer que é um indício de malícia que Deus podendo e sabendo fazer todas as cousas perfeitas, fez um mundo cheio de miséria, malícia e sofrimento. Assassinato é, não obstante, matar a pessoas em caso de apostasia ou em caso de resistência a abraçar a religião cristã, como fez o cristianismo no decurso da história.

O suicídio, pola sua parte, dizem que  é gravemente contrário `à justiça, à esperança e à caridade. Está proibido polo quinto mandamento” (2325). Mas aludir ao quinto mandamento suscita a questão do valor destes mandados e a sua inspiração por Deus, questões muito problemáticas porque não há indício nenhum de que um ser divino seja o autor, senão que todos os indícios apontam a que não é assim, e, por outra parte, só seria valido este argumento para os que os que se proclamam judeus ou cristãos. Aliás, o quinto mandamento reza: “Não matarás”, e esta é uma formulação tão geral que se converte em vazia, pois, apesar deste mandado, ninguém põe em questão a licitude de matar em caso de legítima defesa, em caso de guerra defensiva, etc. e inclusive distinguem com medalhas a aqueles que mais matem.

Na Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, Iura et Bona, de 5/05/1980, aprovada por João Paulo II adota-se um posicionamento integrista, contrário a qualquer aspiração dos doentes a poder ter uma morte digna, e beligerante para que os poderes públicos não permitam sob nenhum conceito que se pratique a eutanásia. “Ora bem, é necessário reafirmar com toda firmeza que nada nem ninguém pode autorizar a morte dum ser humano inocente, seja feto ou embrião, menino ou adulto, ancião, doente incurável ou agonizante. Ninguém ademais pode pedir este gesto homicida para si mesmo ou para outros confiados à sua responsabilidade nem pode consenti-lo explícita ou implicitamente. Nenhuma autoridade pode legitimamente impô-lo ou permiti-lo. Trata-se, com efeito, duma violação da lei divina, duma ofensa à dignidade da pessoa humana, dum crime contra a vida, dum atentado contra a humanidade”. Creio que este pronunciamento é singelamente inumano e totalmente alheio à mentalidade da grande maioria das pessoas humanas nos nossos dias, que nunca aceitariam que casos como o de Ramón Sampedro ou o de Anjo Hernández, sejam considerados crimes, o qual indica o afastamento da Igreja a respeito da maioria social dos nossos dias, que a nível político só concorda com o ideário do PP e Vox. A Igreja é livre de adotar o posicionamento que estime pertinente, mas carece de legitimidade para impor o seu ideário ao corpo social majoritário que se opõe às suas receitas.

A dor ou a vontade do paciente, em contra do que sustinha Antônio Peinador, não têm para a Congregação citada valor decisivo algum à hora de decidir sobre esta questão, segundo a citada Declaração. “As súplicas dos enfermos muito graves que alguma vez invocam a morte não devem ser entendidas como expressão duma verdadeira vontade de eutanásia; estas com efeito são quase sempre petições angustiadas de assistência e de afeto”. Estes clérigos já sabem qual é a verdadeira e a falsa vontade. As súplicas dos doentes incuráveis e vítimas de dores insofríveis e inevitáveis não lhe dizem nada aos hierarcas do Vaticano. “A dor, sobre todo a dos derradeiros momentos da vida, assume um significado particular no plano salvífico de Deus; com efeito, é uma participação na paixão de Cristo e uma união com o sacrifício redentor que Ele ofereceu em obediência à vontade do Pai”. Simplesmente, tenho que dizer que me parece um texto infundado e sádico, que se regozija com o sofrimento das pessoas para que prolonguem inutilmente uma vida que perdeu o seu valor humano e se converteu num martírio para os que sofrem e para os seus acompanhantes. Colaborar na paixão de Cristo cumpre deixá-lo para os que crêem na divindade de Cristo e no sadismo dum Deus que quer sacrifícios humanos e não duvida em sacrificar dum jeito totalmente desnecessário ao seu próprio filho.

Frente a esta ética heterônoma pensada por hierarcas religiosos para todas as sociedades sem distinção de classes, de condicionantes históricos, de valores sociais comunitários, absolutista, baseada em textos arcaicos de faz três mil anos supostamente inspirados por uma divindade, e independente da sensibilidade social, cumpre erguer a bandeira duma ética cívica, laica, autônoma que, a diferença do que dizia Kant, não significa uma ética individualista e anti-histórica, senão uma ética comunitária, que muda com o câmbio de condições socioeconômicas e da sensibilidade social, com objeto de criar uma sociedade mais fraterna, justa, igualitária e sensível à dor alheia, incluída também a dos animais infra-humanos.

Esta ética, naturalmente, tem que promover a vida, o seu valor intrínseco e a dignidade da pessoa humana. Esta vida não se pode quitar por depressões e/ou sofrimentos passageiros e/ou curáveis, por caprichos da própria ou doutras pessoas, por doenças e dores suportáveis, senão só quando a doença é fidedignamente incurável, desapareceu toda esperança de melhora e é solicitada em estado de lucidez polo paciente dum jeito contrastado.  Estas mesmas condições são válidas para o caso do suicídio deliberado.

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Espanha deve pedir perdão?

Os conflitos com Latino-América sucedem-se periodicamente. Os da minha idade podem lembrar-se bem da enorme gafe diplomática do embaixador espanhol na Habana, Juan Pablo de Lojendio, marquês de Vellisca, que, considerando que todo é ourego, se apresentou nos estudos da Televisão cubana para repreender pessoalmente dum jeito visceral e impertinente ao líder máximo da revolução cubana Fidel Castro, por ter acusado ao governo espanhol e ao citado embaixador de conspiração e ajuda aos contra-revolucionários. Visivelmente irritado manifestou: «Quero falar aqui, porque se me caluniou»”. Às palavras do moderador de que tinha que pedir permisso, retrucou: «Isto é uma democracia e o senhor moderador é quem dirige», ou seja, o colmo do desatino e da impertinência. Castro, pola sua parte, também irado, manifestou: «Vai-me falar de democracia o embaixador da maior ditadura de Europa!». Os encontrões com Castro foram constantes na etapa do governo Aznar, nos que reluziu o seu ar de superioridade o governante espanhol, como quando, depois dum intercâmbio de gravatas, presumia que a sua gravata era melhor que a dele. «Fidel levou uma das melhores gravatas que se pôs nunca».

O 21/11/207 fez-se célebre a cominação impertinente do rei João Carlos I ao presidente de Venezuela Hugo Chavez, dizendo-lhe:  «Por que não te calas?», que parece delatar um grande sentimento de superioridade sobre o mandatário de Venezuelano, e isto a todo um presidente dum país. As críticas constantes e o clima mediático adverso com esta república foi uma constante na etapa dos governos de Rajoy, que só serviu para enrarecer o ambiente entre os dous países, que repercute muito negativamente sobre os cidadãos galegos e espanhóis naquele país. Mas a fase aguda destas desavenças foi o alinhamento do governo de Sánchez com o de Estados Unidos para sacar pola força do poder ao presidente Nicolás Maduro, ao que não se lhe intui outra motivação que apoderar-se das enormes riquezas que alberga este país. Se os EEUU e Espanha querem autêntica democracia têm trabalho no seu país. O conflito catalão põe de relevo as enormes debilidades da democracia espanhola e a falta duma autêntica divisão de poderes, mas isto não é óbice para que os políticos espanhóis do 155 dêem lições de democracia a destra e sinistra. Esta míngua na divisão de poderes quer compensar-se com a propaganda, mas isto não chega, porque é impossível ter divisão de poderes quando os membros da cimeira da judicatura são elegidos polos representantes dos partidos políticos, até o momento presente do bipartito, que se pelejam ente si a ver quem nomeia um representante mais que o outro. Se é como dizem, que nos expliquem estas leias para controlar o poder judicial. Todos sabemos que quem nomeia os cargos vai ter poder para controlá-los.

O processo de descolonizaç4ao das colônias hispanas produziu-se dum modo traumático e violento, porque o império espanhol nunca quis dialogar sobre as demandas que lhe transmitiam de América. Isto deu como resultado uma convivência difícil depois da independência, cheia de tensões e conflitos, e com uma tendência do Estado espanhol a intrometer-se nos assuntos internos dos países latino-americanos, e inclusive, nos nossos dias, de confluir com o imperialismo estadunidense para impor regimes do seu interesse, como se pôs de relevo no caso de Cuba e Venezuela. Com esta finalidade, não duvida o ex-falangista e promotor com mentiras da guerra do Iraque Aznar fazer-se passar por modelo de democrata.

O que acabamos de relatar é pecata minuta se o comparamos com o que aconteceu durante a fase da colonização, que recebe o nome de descobrimento, que muitos consideram um autêntico genocídio, mas não só os críticos tradicionais com Espanha, senão também os próprios cronistas espanhóis, salvo que, por uma deformação intelectual, não consideremos como tais aos freires relatores da colonização de América, como Antônio de Montesinos e Bartolomeu das Casas. Alguns dirigentes políticos, como o Sr. Borrell não se lhe ocorre nada melhor que comparar o citado genocídio cometido com os índios americanos indefensos e sem capacidade nenhuma de reação com a guerra da independência de 1808 contra os franceses na que pelejavam dous exércitos profissionais. Polas mesmas razões, tampouco é comparável este caso com as guerras seculares entre cristãos e muçulmanos, que receberam o nome de reconquista.

No processo de colonização de América atuaram ao uníssono a Igreja e o Estado para impor:

– A redução a escravidão dos índios americanos, na que a força coativa era exercida polo estado e a ideologia era abençoada polo cristianismo. O papa Nicolau V promulgou a bula Dum diversas, o 18/06/1452, pola que autorizava o rei Afonso V de Portugal a reduzir à escravidão os muçulmanos (sarracenos), pagãos e os outros incrédulos a escravidão perpétua. O papa, após expressar a sua habitual queixa contra os inimigos da fé, que buscam eliminar a religião cristã, e declarar que o faz inflamado polo ardor da fé e fortificado com o amor divino,… escreve “concedemos-te  por este edito, devido à autoridade apostólica, poder total e livre para invadir, conquistar, dominar, subjugar os sarracenos e pagãos e outros infiéis e outros inimigos de Cristo, e onde quer estabeleceram os seus reinos, ducados, palácios reais, principados e outros domínios, países, lugares, quintas, campos e qualquer outras possessões, bens móveis e imóveis achados em todos estes locais… e reduzir as suas pessoas a escravidão perpétua e apropriar-se reinos, ducados, palácios reais, principados e outros domínios, possessões e bens de todas classes para ti e o teu uso e os teus sucessores os reis de Portugal”. Esta bula é uma clara demonstração da conivência da cruz e da espada, que pretende facilitar o colonialismo mais desapiedado de submissão doutros povos em benefício mútuo. O rei obtém novos territórios que lhe vão permitir estender o domínio temporal a mais países e incrementar os ingressos das arcas públicas, e a Igreja novos aderentes que compartam o discurso único em aras de liderar o domínio espiritual das consciências e procurar uma nova fonte de tributos para a Igreja. Esta faculdade de escravização foi ratificada e estendida a outros territórios na bula Romanus Dominus, de 5/01/1455, dirigida por Nicolau V ao mesmo rei Afonso. Consagra-se assim a redução à escravidão aos indígenas de África, que foi o início do tráfico massiva de escravos a América, bula que consagra o domínio colonial temporal de Portugal em África, que vai fundamentar posteriores reclamações territoriais de Portugal, mas que vai chocar com os interesses da outra potência colonial ibérica nesse momento, que a vai impugnar.

– O tandem da espada e da cruz de Espanha e o Portugal também exportou a Latino-América a instituição da inquisição com a finalidade de semear o terror na população com a pretexto de que o primeiro era salvar a sua alma, e na década de 1560 a inquisição decidir trasladar-se a América, e em 1572 os membros da inquisição de México chegaram a Veracruz, ao mando do inquisidor em chefe Pedro Moya de Contreras. O terror e a hipocrisia começaram a estender-se polo continente americano, afetando também agora às fações dissidentes do catolicismo, os protestantes. O catolicíssimo rei Felipe II estava muito interessado em outorgar um poder mundial à instituição espanhola, e do que se tratava era de que ninguém estivesse livre de suspeita e que se lograsse instaurar a cultura do medo. Toby Green relata como se produzia o processo de redução as escravidão uma vez que a inquisição começou a atuar em América. Os prisioneiros nativos eram trasladados “encadeados em grupos de até mil e, uma vez que chegavam às minas eram obrigados a trabalhar sem paga e com rações exíguas. Para castigar a estes escravos podia castrá-los, derreter-lhe graxa de porco com uma vela e deixá-la cair sobre a sua pele, cortar-lhes uma orelha, uma mão ou uma perna, ou forcá-los

– Os maus tratos que recebiam os nativos é descrito por Frei Bartolomeu das Casas num sermão pronunciado o 21/12/1511 nos seguintes termos: “Todos estais em pecado mortal e nele viveis e morreis, pola crueldade e tirania que usais com esta inocentes gentes. Dizei, com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão a estes índios? Com que autoridade tendes feito tão detestáveis guerras a estas gentes, que estavam nas suas terras mansas e pacíficas, onde tão infinitas delas com mortes e estragos nunca ouvidos tendes consumido? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e curá-los nas suas doenças, que dos excessivos trabalhos que lhes dais incorrem e se vos morrem, e por melhor dizer os matais, por sacar e adquirir ouro cada dia? E que cuidado tendes de quem os doutrinem, e conheçam o seu deus e criador, e sejam batizados, ouçam missa e guardem as festas e os domingos? Estes não são homens? Não têm ânimas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Isto não entendeis, não sentis? Como estais nesta profundidade de sonho tão letárgico, dormidos? Tende por certo que, no estado em que estais não vos podeis mais salvar, que os mouros e turcos que carecem e não querem a fé de Jesus Cristo”

            Deve Espanha pedir perdão? A nível legal não tem nenhuma obrigação, mas outra cousa é que a obrigue a isso, mas outra cousa é se, tendo em conta a história da colonização e o exemplo dado polo Pontífice de Roma e que os excessos cometidos por Espanha forma horrendos, não lhe seria mais conveniente fazê-lo para que esse passado não assumido como o que realmente foi, não perturbe as relações com uns povos que para os ibéricos devem ser sócios fraternos enquanto ligados a nós por uma língua e cultura comum. Deve evitar-se falar de descobrimentos e de dias da raça e da hispanidade, exaltada a festa nacional e que não se sabe que bem que pode significar e que trai lembranças que estes povos não podem passar por alto. Deve também isto servir de reflexão sobre a política que se está a aplicar com Catalunha e com todos os demais povos do Estado espanhol aos que se quer obrigar a conviver conjuntamente numas condições forçadas que eles não estão dispostos a aceitar. A convivência comum é possível se se criam as condições que os conviventes aceitem voluntariamente, mas uma imposição forçada parece que não vai dar resultado.

 

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Bravo por Greta Thunberg!

Grandes iniciativas ficam se desativadas se não surge um ou uma líder que aglutine as vozes dispersas e lhe dê o eco que precisam para calar na opinião pública e converter-se num movimento de massas, único jeito de incidir nas consciências e propiciar um câmbio de tendência no organismo social.

A luta contra o câmbio climático é o problema mais importante com o que se enfrenta a humanidade nos nossos dias porque se o planeta se volve inabitável todo o demais sobra, e surpreende a lentidão com a que se tomam as medidas precisas para deter essa deriva cara ao precipício da que vem insistindo a ONU desde faz já algum tempo. Num informe desta organização de data 15/03/2019 declara que o 95 por cento da população mundial vive numa nuvem tóxica, e, portanto, respira ar contaminado. Alerta que se não se incrementam drasticamente as proteções ambientais poderiam produzir-se milhões de mortes prematuras, cara ao ano 20150, nas cidades de Ásia e África, e insiste em que cumpre transitar cara a um desenvolvimento sustentável.

O reto ao que nos enfrentamos é de primeira magnitude e continuamos caminhando a passos de tartaruga para remediar a hecatombe. A isto há que acrescentar a grande insensibilidade das elites econômicas e políticas, especialmente de países como os EEUU de América em que a Administração Trumpo se dedica a negar o problema e pretende que os outros países corram com o custo dum problema criado, em grande parte, precisamente por ela, por ser este país o segundo maior contaminante do planeta. As elites oligárquicas, por uma parte, fazem negócio a custa da venda de combustíveis fósseis que inundam a atmosfera de CO2, NO2 e metano (CH4), que é um gás que atrapa 20 vezes mais o calor que o dióxido de carbono, e pola outra, beneficiam-se da luta contra o câmbio climático que realizam os demais.

A solidariedade inter-geracional é um conceito básico em ética, porque não é correto fazer o que à geração atual lhe acomode e às vindoiras que as parta um raio. Assim como não podemos desentender-nos dos que hoje o passam mal, tampouco podemos deixar-lhe às gerações futuras um mundo inabitável. Outro princípio que deveria abrir-se passo com presteza é o câmbio de mentalidade sobre o mundo que nos rodeia: mineral, vegetal e animal infra-humano. A ética tem que ser global ou não é nada. Os vegetais fazer possível a vida na terra e os animais são seres sencientes que são os nossos companheiros de viagem. Isto implica que é um atentado contra eles tratá-los como meros instrumentos do nosso prazer e dos nossos passatempos. A caça, as corridas de touros e as pelejas de cães e galos colidem com uma consciência ecológica lúcida e respeitosa com os direitos dos animais, especialmente dos sencientes. O cuidado das árvores, a preocupação polo equilíbrio dos elementos que constituem o meio ambiente e, consequentemente, a luta contra a degradação do solo, a contaminação, o consumo excessivo de auga, a degradação da atmosfera e a preservação da biodiversidade constituem também o eixo básico duma ética ecológica.

Entre as medidas que propõe a ONU figura a diminuição do consumo de carne, porque a cria de gado produz anualmente uns 115 milhões de toneladas de gás metano nos processos de nutrição animal. O simples eructo duma vaca produz entre 80 e 120 quilos de metano ao dia, devido a que têm no intestino baterias que o produzem na fermentação do processo de digestão.

A sensibilidade das pessoas continua sendo deficiente, incluso de pessoas que lecionam aulas e que pola sua profissão estão obrigadas a formar-se uma ideia desta ameaça para a humanidade. Foi especialmente sintomático que todo um catedrático de física, coirmão do anterior presidente do governo negasse o câmbio climático pretextando que se não podemos predizer o tempo que faz amanhã, como imos saber se existe câmbio climático? Em base a esse negacionismo de todo um catedrático de física, Rajoy sentenciou que “o câmbio climático tampouco o podemos converter no grande problema mundial”.

A nível político não se tomam as decisões necessárias para preservar o planeta vivo com a rapidez que seria de desejar. Os políticos, tendo em conta que o movimento dos coletes amarelos na França se desencadeou como protesta contra um imposto ao carbono, não se atrevem a tomar as medidas precisas para procurar deter os efeitos perversos do câmbio climático: secas e inundações mais frequentes, ciclões, suba dos níveis da auga dos mares, perda de biodiversidade,… Entendo que, em realidade, a luta na França, que depois se estendeu a outros países europeus, não se deve tanto ao imposto citado senão à situação de precariedade dos trabalhadores europeus que não são capazes de levar uma vida digna, ao tempo que as elites econômicas amassam a cada passo mais dinheiro com a cumplicidade dos seus corifeus políticos. A gente assume normalmente as medidas necessárias para deter o desarranjamento do clima e do meio ambiente, mas exigem que as oligarquias também façam sacrifícios.

Os governos do PP foram especialmente insensíveis na luta contra o câmbio climático. Implantaram o imposto ao sol para beneficiar as elétricas e não tomou nenhuma medida para implantar os veículos elétricos. Na Galiza, paralisaram o concurso eólico que atrasou o desenvolvimento das energias renováveis, enviando-lhe uma mensagem errônea à cidadania. A política florestal é insatisfatória porque fomenta a implantação intensiva de espécies pirófilas, de plantas que favorecem os incêndios florestais.

O governo espanhol do PSOE deu-lhe um impulso à luta contra o câmbio climático: eliminou o imposto ao sol, anuncia medidas de encerramentos das centrais de carbono e também obrigaram que as gasolineiras instalem carregadores de baterias para veículos em 2020, mas não foi capaz de aprovar o decreto sobre contadores individuais de calefação apesar de ter o projeto preparado desde o mês de setembro de 2018. Suponho que será por medo a que aqui se estenda o movimento dos coletes amarelos. Isto impede que as comunidades de vizinhos não se decidam a tomar medidas de eficiência energética, por aquilo de que é melhor esperar e ver como queda.

Greta Thunberg, uma mocinha sueca de 16 anos, diagnosticada como com o síndrome de Asperger, que se engloba dentro do Espectro de Transtorno Autista, que, no seu caso se carateriza por ver o mundo em branco e negro, ter dificuldade para fingir e mentir e desinteresse polos jogos sociais, converteu-se no ícone da luta contra o câmbio climático. Desde agosto de 2018 vem protagonizando greves todos as sextas feiras, e logrou que a sua sensibilidade se estenda-se já aos moços e moças de muitos países. Em mais de 270 cidades já se produziram manifestações secundando os seus objetivos. Não podemos por menos de transmitir-lhe os meus parabéns, ademais de pola sua inteligência e serenidade na exposição, por ter aglutinado uma parte significativa da juventude mas sensível dos nossos numa luta que merece a pena, porque é uma luta polo bem-estar da sua geração e das que lhe sucederão. Este despertar juvenil por uma causa justa e vital para o porvir do planeta, une-se ao despertar das mulheres para lograr a igualdade de direitos a nível social com o varão.

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Misogínia, misossexualidade e misocósmia Tertuliano

Em solidariedade com a luta pola igualdade das mulheres

            Assistimos nos nossos dias a uma cerimônia da confusão e de impotência na igreja, incapaz de reagir perante o enorme mal-estar das mulheres pola sua situação de inferioridade, subordinação e violência que padecem frente ao sexo masculino. Esta instituição está tão condicionada polos seus documentos fundacionais, que poderíamos denominar a sua constituição, integrada pola Bíblia, o magistério eclesiástico e a escritos dos chamados Santos Padres, que corre o risco de rachar-se se toma alguma medida para remediar esta sanguinolenta situação de discriminação salarial e social frente ao homem. Hoje imos falar da misoginia, misossexualidade, misohedonismo e misocósmia, ou seja do ódio às mulheres, ao sexo, ao prazer e a este mundo e da subordinação e inferioridade da mulher num dos teólogos que exerceu grande influência no cristianismo, ainda que tecnicamente não seja considerado como um Santo Padre por ter abandonado a Igreja.

O cartaginês e brilhante polemista, Tertuliano (ca. 160-225), chamado o pai da cristandade latina e o fundador da teologia ocidental, converteu-se ao cristianismo cara ao ano 197, que abandonaria dez anos depois para integrar-se na seita rigorista do montanismo, que também abandonaria para fundar a sua própria confissão. Como apologista, combateu diversas «heresias»: marcionitas, valentinianos, nicolaítas,… Esteve casado, mas converteu-se em ardente defensor do celibato e inclusive da castração em seguimento do que diz Jesus em Mateo, 19,12 a propósito dos que se fazem eunucos polo reino dos céus.  Segundo Shaum Tougher, Tertuliano utiliza os termos castratus, eunuchus e spado (castrado, eunuco (em grego) e eunuco (em latim) algumas vezes como  intercambiáveis. No livro Ad Uxorem, faz um panegírico da continência num contexto plenamente misossexual, de desprezo do sexo, no que este aparece como um estorvo para achegar-se à divindade. Os que não estão casados não devem casar e os que o estão devem viver como se não o estivessem, e os que perderam a sua parelha não devem volver casar. “Quantos não ha que, por mútuo consentimento suprimem os deveres do matrimônio, eunucos voluntários, para conquistar melhor o céu! Se se abraça a continência no matrimônio, com quanta mais razão cumpre impô-la quando a morte o rompeu?”. O ódio ao sexo é tal que não se recata em emendar a obra divina, tal como o cristianismo a entende, que criou seres sexuados e dotados de libido para segurar a procriação. No livro De cultu feminarum volve insistir na continência sexual, que tem uma das  suas múltiplas raízes no Apóstolo Paulo, e carga contra o ornato feminino. “Se o Apóstolo ordena aos maridos viver com as suas esposas como se não as tivessem, que pensaria dos ornatos vãos dos que se carregam? Não é por este motivo e a causa do reino de Deus que muitos se convertem em eunucos, renunciando com uma vontade tão firme e confiada a prazeres imperiosos dos que o uso puder ser legítimo?”. O que autoriza aos cristãos a obrar deste modo é a  sua predestinação por Deus para abolir os princípios mundanos, desde uma posição misossexual, misohedonista e misocósmica, de radical ódio deste mundo. “Nós somos aqueles para os que transitaram os fins dos séculos; destinados por Deus antes do juízo dos tempos, somos instruídos por Deus, como castigar e castrar, como disse, o mundo. Somos a circuncisão de todos, espiritual e carnal. Pois circuncidamos no espírito e na carne a mundanidade”. Temos condensado em poucas palavras a animadversão do cristianismo por este mundo, polas paixões, polos prazeres, porque o mundo cristão é um mundo lúgubre, um mundo de trânsito que odeia o estádio presente em aras dum futuro imaginário que seria o mundo autêntico, um mundo, em definitiva, que denigra a sabedoria e bondade do seu criador. Deus situou ao ser humano neste mundo para que o odiasse e escapasse dele e todo gozo dos escassos prazeres e satisfações que este mundo nos dá é visto como suspeitoso de pecado e de transgressão.

No Véu das Virgens, partindo da, para ele, natural inferioridade da mulher, submetidas em todas as cousas ao homem, critica que estas não se velem e que levem marcas que as distingam das demais mulheres e a razão é que os homens não o fazem: “Polo demais, seria uma cousa bastante estranha que as mulheres, submetidas em todas as cousas ao homem, levassem como sinal de honor uma marca da sua virgindade que atraísse a atenção e o respeito dos seus irmãos, enquanto que tantos homens virgens, tantos eunucos voluntários, estariam limitados a esconder a sua virtude, não levando nada que os possa distinguir”. Podemos observar que neste texto, Tertuliano cita a submissão total das mulheres ao homem em todo, que ele considera normal e não a condena, ao tempo que acredita na existência de muitos eunucos voluntários, dos que louva a sua virtude, e, por tanto, aprova implicitamente esta prática, que confirmaria a sua adesão à mensagem de Jesus a este respeito. Estes eunucos voluntários são distinguidos claramente dos celibatários ou virgens, e, por tanto, trata-se de pessoas emasculadas fisiologicamente. Descreve outro traço que é importante como princípio hermenêutico, que consiste na ocultação da castração.

Em Exortação à Castidade, faz um novo alegado em prol da vida de castidade, aconselhando não casar ou fazê-lo com uma esposa puramente espiritual, ao tempo que critica aos que se opõem à eleição deste modo de vida: “Eu sei com que pretextos coloreamos a nossa insaciável cobiça da carne. A necessidade duma assistência, uma casa a  governar, servidores a conduzir, armazéns e chaves a guardar, obras de lã a distribuir, gastos aos que ha que atender; eis o que alegamos. Com efeito, não andam bem administradas mais que as casas dos homens casados! Todo vai mal com os celibatários; os bens dos eunucos perecem; a fortuna dos soldados é dilapidada; os viageiros sem esposas estão arruinados! Esquecemos pois que nós somos também soldados, soldados submetidos a uma disciplina tanto mais severa quanto a nossa casa é mais  grande? Não somos nós viageiros neste mundo? Por que pois esta disposição, ó cristão, que ti não possas viver sem esposa?̋. A vida neste mundo é de trânsito e o melhor é viver sem esposa. A luta contra a carne, de por si pecaminosa, em contra do espírito, leva a este autor a optar por um amor platônico, emendando a natureza humana, da que as paixões, impulsos, sentimentos, pulsões, etc. som um constitutivo natural e propõe um modo de vida de pessoas herméticas entre si vivendo uma vida de castidade, que é a que nos faz santos já neste mundo.

No livro primeiro Contra Marcião, escreve: “Si, Marcião, ti és mais odioso que as bestas daquela barbárie. Com efeito, que castor é mais castrador da carne que  quem destruiu as núpcias”. Em contra do que afirmava no texto anterior, neste indica claramente que quem condena ou destrui o matrimônio, como Marcião de Sinope (85-161 e,c.), é um castrador da carne. Apresenta-se, pois, Tertuliano como um defensor do matrimônio, frente ao ataque a ele de Marcião, que só batizava os que não estavam casados: virgens, viúvas, celibatários, divorciados e eunucos.

Em Sobre a Monogamia posiciona-se entre os que chama heréticos e os psíquicos; os primeiros repudiam o matrimônio, não se casam nem uma vez; os segundos não só uma vez. Ele considera que o seu posicionamento é um justo termo médio, que ele denomina espirituais. “Entre os eunucos alheios e os teus aurigas tanto te lamentas do serviço doméstico quanto do desprezo alheio; portanto ofendem os que abusam como os que não usam. Em verdade nem a continência se deve louvar porque é herética nem defender a licença, porque é psíquica; aquela blasfema, esta entrega-se à luxuria; aquela destrui o deus das núpcias, esta ofusca-o

Nesta mesma obra afirma Tertuliano que Jesus era um eunuco, igual que o apóstolo Paulo: “Mas se a monogamia é onerosa, também o é a descarada doença da carne; mas, se também é nova é o que imos ver agora. Dizemo-lo mais amplamente: embora que o Paracleto estabelecesse no dia de hoje uma total e sólida virgindade ou continência, de modo que não permite apaziguar com umas núpcias únicas o fervor da carne, assim também nada novo parece induzir-se, tendo em conta que o mesmo senhor lhe abriu o reino dos céus aos eunucos sendo ele também eunuco; em quem fixando-se, o apóstolo, ademais sendo ele castrado, preferiu a continência. mas deixando a salvo, dizes, o direito de casar. (ipso domino spadonibus aperiente regna caelorum ut et ipso spadone, quem spectans et apostolus, propterea et ipse castratus, continentiam mavult. ‘Sed salvo’, inquis, ‘iure nubendi’) Totalmente a salvo e veremos até onde; não obstante o destruiu naquela parte em que prefere a continência. É bom para o homem não aproximar-se a nenhuma mulher, logo é mau acercar-se, pois não ha nada contrário ao bom mais que o mau. Portanto fica (a dizer), que os que tenham mulheres obrem como se não as tivessem, e tanto mais os que não as têm não devem tê-las. Explica também as causas porque aconselha isto, que os não casados pensem sobre Deus, mas os casados que cada um se satisfaça no seu matrimônio. E podo suster que não somente é bom o que se permite, senão que o que se permite não é puramente bom, pois o que é puramente bom não se permite senão que ademais é lícito. A permissão tem alguma vez por causa a necessidade. Finalmente nesta classe não há vontade do permissivo de casar, senão que quer outra cousa: quero que vós, diz, todos sejais como eu”. Apresentamos este longo texto por crer que é indicativo do pensar da Igreja a través da sua história. Em primeiro lugar, Tertuliano opta pola monogamia, entendida como o facto de possuir uma mulher única, tanto simultânea como sucessivamente, e, por tanto, condena as segundas núpcias em caso de que lhe morra a um dos esposos o seu companheiro/a. Esta era a posição dos montanistas, mas não foi seguida no futuro pola igreja oficial, que terminou tolerando as segundas núpcias ainda que de mal grau. Em segundo lugar, assume a ideologia platonizante do ódio contra a matéria, contra o corpo, contra a carne, emendando a própria obra divina. Em terceiro lugar, apesar de reconhecer que o impulso sexual não se logra apaziguar com umas únicas núpcias, a única solução que oferece é a continência, pois, segundo ele, igual que Deus é único, o matrimônio também deve ser único. Em quarto lugar, acredita que Deus também acolhe aos eunucos no reino dos céus, como escreve o Trito-Isaías. Em quinto lugar, declara que tanto Jesus como o Apóstolo Paulo eram eunucos, no sentido fisiológico de castrados, palavra esta última intercambiável para ele com eunuco neste texto. Em sexto lugar, sustém, como tradicionalmente a Igreja, que a continência é preferível ao matrimônio, se bem permite este, não como um bem verdadeiro, senão só  em aras à procriação da espécie, que seria a única finalidade da união matrimonial. Inclusive ousa manter que os que têm mulher devem obrar como se não a tivessem, o qual poderia ser um tema para um debate dum cursinho pré-matrimonial. Em sétimo lugar, já aparecem nele a razão que fundamenta tanto o celibato como o eunuquismo, que é a dedicação total a Deus, melhor seria dizer à Igreja, que seria incompatível com as preocupações matrimoniais.

Muitos exegetas cristãos interpretam que Jesus se refere neste texto ao celibato, à virgindade, mas isto não tem fundamento e inclusive o apóstolo Paulo parece refutá-lo claramente quando diz que “a respeito das virgens não tenho preceito do Senhor”. Por conseguinte, Jesus, segundo Paulo, não disse nada a respeito do celibato. Tampouco é verdade, como veremos, o que dizem vários exegetas que os Padres da Igreja e os Escritores Eclesiásticos entendiam o terceiro suposto dos eunucos em referência a pessoas celibatários.

Jesus aconselhava a castração polo reino dos céus, e agora Tertuliano indica que tanto ele como Paulo eram eunucos, e deste último precisa expressamente que estava castrado. Não sabemos quais são as fontes que lhe permitem a Tertuliano afirmar que Jesus era um eunuco, se bem poderia recolher uma tradição oral presente no seio da Igreja. Alguns autores afirmam que o mesmo Jesus foi acusado em vida polos seus adversários de ser um eunuco, mas eu não achei nenhum documento dos primeiros tempos que o acredite. Creio que se pode afirmar com todo fundamento que Jesus era um eunuco polo menos espiritual, no sentido de que optava claramente, a nível ideológico, pola castração em aras do reino dos céus, e que isso era o que ele recomendava aos seus discípulos, mas é uma questão aberta se estava castrado ou não, ainda que a sua conduta a respeito do sexo com mulheres, faceta  totalmente enigmática, oculta, e inexistente segundo vários autores eclesiásticos, e o seu trato com elas, indiferente, distante, salvo os seus episódios com a Magdalena, numa sociedade que considerava ter filhos como uma benção de Deus e a eleição exclusiva de homens como discípulos, a misoginia dos essênios da que ele quiçá participou, indicam que podia ser esse o motivo, embora também é provável que Jesus for mais bem misossexual e miso-nupcial ao estilo dos essênios.

O professor medievalista da Universidade de São Diego, Mathew Kuefler, especialista em temas de sexualidade, considera que “se Jesus estava familiarizado com os galli e as suas auto-emasculações como práticas religiosas, então é polo menos possível que as suas palavras eram tencionadas literalmente e que ele estava recomendando aos seus seguidores varões que se castrassem fisicamente a si próprios”. Tem presente este autor a animadversão que sentia o que ele chama a aristocracia romana pola auto-emasculação que punha em questão a possibilidade de penetração do cristianismo no Império Romano e que, portanto, cumpria suprimi-la, por muito que estivesse apoiada na autoridade de Jesus. A supressão consistiu em mudar o seu sentido literal polo alegórico, passando os devotos a serem uns castrados espiritualmente. Entendo que mais que de aristocracia haveria que falar das elites cultas e/ou sensíveis, pois muitas pessoas das elites econômicas altas tinham, no Império Romano, eunucos ao seu serviço. Além disso, creio que é pouco instrutivo falar de que é possível que as palavras de Jesus pretendiam ter um sentido literal, pois possível é quase todo. Creio ademais que ha um dado que o professor citado não tem em conta que é a legislação romana formalmente oposta à auto-castração, e muito especialmente ao controle da natalidade, que explica que Jesus não pudesse falar abertamente e se refugiasse nas palavras crípticas: «quem poda entender que entenda», que nenhum comentarista cristão é capaz de explicar satisfatoriamente. Se temos em conta que é polo menos raro que um no mesmo texto misture o sentido literal com o alegórico, a conduta distante, desprezativa e indiferente de Jesus a respeito do sexo, a sua crença de que o fim do mundo está próximo, e a prática eclesial no cristianismo primitivo, creio que podemos concluir que Jesus estava recomendando a auto-emasculação física, que lhe estava a inculcar o ideal do eunuquismo, e que inclusive, se ele se estava a referir-se a si mesmo no terceiro suposto de eunucos, como afirma Tertuliano, que ele fosse também um eunuco, não só no sentido espiritual, que creio que é claro, senão também no sentido físico, se bem não temos a este respeito mais que alguns elementos indiciários e não provas conclusivas.

A razão profunda alegada por Tertuliano para a prática da emasculação é a crença, tão presente no cristianismo primitivo, recebida de Jesus, de que o fim do mundo está próximo, e isso invalida o preceito veterotestamentário «crescei e multiplicai-vos», e explica o câmbio na valoração dos eunucos, que foram convidados ao reino dos céus. “Pois depois que o fim dos tempos volveu inútil este preceito: «Crescei e multiplicai-vos»; depois que o Apóstolo disse: «Que vos queda por fazer, senão que aqueles que têm esposas sejam como se não as tivessem, porque o tempo da recoleção chegou e a uva verde, comida polos pais cessou de irritar os dentes dos meninos, pois cada um morrerá no seu pecado», desde esse momento não só os eunucos não estão já submetidos ao opróbrio, senão que mereceram a graça e foram convidados ao reino dos céus”.

Neste mesmo livro apresenta a Cristo como o novo Adão, ao que o cristão deve parecer-se, que é um modelo tanto mais perfeito quanto mais íntegro, “Mais dada à enfermidade da tua carne, o exemplo da sua, o Adão mais perfeito, ou seja, Jesus Cristo, tanto mais perfeito quanto mais íntegro, apresenta-se ante ti, se o desejas, como eunuco na carne; mas se não tens forças suficientes, apresenta-se como monógamo em espírito, tendo a igreja como esposa  figurativamente, que o apóstolo interpreta daquele grande sacramento de Cristo e da Igreja”. Para interpretar o sentido de eunuco na carne, pode ser clarificador aduzir outros textos paralelos deste livro De monogamia. “Só encontro a Pedro como marido, pola sua sogra; pressinto que era monógamo pola igreja; que funda sobre monógamos todo o seu rango hierárquico. Aos demais não encontro que estivessem casados, e entendo que necessariamente eram eunucos ou continentes”. Distingue, pois, claramente Tertuliano entre eunucos e continentes entre os não casados, e, por tanto, isto cumpre aplicá-lo aos demais textos.

 

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O cristianismo destruiu a ética

O cristianismo em Espanha não só pretende que o seu sistema de valores morais prevaleça, senão que pretende que seja o único sistema de valores vigorante na sociedade, pretensão a todas as luzes inadmissível se temos em conta que qualquer religião não deixa de ser uma associação particular, que, numa sociedade pluralista, nunca pode representar ao conjunto social. Por outra parte, quando alguém pretende acaparar a direção dos valores que devem servir de guia numa comunidade, o primeiro que deve ter presente é que os cidadãos vão ajuizar estas pretensões de acordo com o seu passado. Neste sentido, considero que fica desqualificada uma associação que:

  1. impôs a partir do seu reconhecimento oficial polo império romano no século IV o maior sistema repressivo que conhecem os séculos, eliminando fisicamente a todos os desviantes, fossem cristãos desviantes, pagãos, judeus, maniqueus, etc.
  2. desde finais do século XI, se lançou a uma luta de conquista sob pretexto de recuperar os santos lugares, provocando não menos de cinco milhões de pessoas mortas;
  3. destruiu qualquer pluralidade cultural e só manteve em pé uma cultura de caráter religioso de índole cristã «ortodoxa» tamisada por clérigos muitas vezes fanáticos e intransigentes.
  4. Impôs um sistema inquisitorial para apagar qualquer vestígio de dissentimento da linha oficial «católica», causando um número de mortos que, no caso de Espanha, o ex secretario espanhol da Inquisição, Juan Antonio Llorente (1756-1823), cifra em 32.000 queimados vivos e 300.000 ajuizados e obrigados a fazer penitência.
  5. obstaculiza a formação livre das pessoas colocando no Índice de Livros Proibidos a milhares de livros que não aceitavam o dogma «católico».
  6. acompanhou e bendisse a conquista espanhola de América que custou mais de 46 milhões de pessoas, e submeteu a escravidão a todo aquele que não aceitasse a doutrina católica.
  7. considerava que tinha poder do Altíssimo para submeter aos povos a escravidão, poder que transmitia aos governantes ao seu bel prazer.
  8. Impôs o monolitismo ideológico na saciedade espanhola por meio da limpeza de sangue para eliminar qualquer concorrência com judeus, muçulmanos e protestantes na sua vocação por consolidar o discurso único. Isto levou-o a revisar o historial dos suspeitosos e a condenar ao ostracismo social a quem não fosse capaz de demonstrar que não estava manchado com sangue de judeus, muçulmanos ou protestantes, constituindo-se assim no predecessor do nazismo.

Ë certo que também os cristãos sofreram perseguições nos primeiros séculos, ainda que não por motivos religiosos senão políticos. A ninguém se lhe molestava por ter um deus próprio, senão por não dar culto ao Imperador enquanto sustentador da ordem sócio-política e por não defender o império participando nas forças armadas, ao que se negavam os cristãos. Mas, não entra no nosso tema dilucidar se o código moral dos romanos serve de base para reger a sociedade atual.

A ética é uma avaliação dos atos humanos enquanto bons ou maus, corretos ou incorretos de acordo com um sistema de valores vigente numa determinada comunidade, e uma proposta de penalizações e prêmios para os que desviam ou se conformam ou realizam ações exemplares desde o ponto de vista social. Todo ato humano, para que seja, moral, e, portanto, responsável e merecedor de prêmio ou castigo, tem que ser:

  1. pessoal, ou seja, um ato proveniente do próprio sujeito, pois em caso contrário não pode ser credor de mérito ou demérito. Um ato que um ser humano faz possuído e impelido por algum ser divino ou diabólico não pode ser credor de mérito nem demérito. Isto implica que um suposto pecado original ou qualquer outro somente poderia imputar-se aos que o cometeram e nunca aos seus descendentes. Por outra parte, a transmissão dum suposto pecado original é impossível porque nenhum ato físico e muito menos um ato moral, como o pecado, se podem transmitir por geração. Somente se pode transmitir um traço fisiológico de pais a filhos se se produz um câmbio no ADN, no código genético, mas a malícia dum ato, que é um ato moral, não se pode transmitir de pais a filhos.
  2. responsável, e para ser responsável tem que ser pessoal, livre e consciente, e, portanto, as gerações futuras não devem carregar com as culpas dos seus ancestrais, porque, não puderam participar em nenhum ato pessoal, livre e consciente antes de nascer. Segundo o cristianismo, depois do pecado original o ser humano perdeu a liberdade e só lhe fica o livre alvedrio, ou seja, que, de por si é incapaz de realizar nenhum ato merecedor de mérito algum perante Deus se este não lhe dá as graças necessárias, mas fica com a liberdade total para pecar. Segundo o cristianismo, todo ato humano para que seja meritório tem que ser produzido pola graça divina que obra em quem Deus quer sem ter em conta o seu esforço, pois a graça é totalmente libérrima e gratuita e não depende das nossas boas obras nem do nosso esforço, pois Deus opera em nós sem nós e dá-lhe as graças a quem ele decida, independentemente dos méritos próprios. A concessão da graça divina é totalmente arbitrária e depende só do seu bel prazer, tese própria dum sistema despótico no que o chefe não tem que dar razão alguma do seu proceder aos seus súbditos nem submeter-se a nenhuma norma. Pergunta-se Agostinho: quem somos nós para pedir-lhe contas a Deus? Esta doutrina da graça, proveniente de Agostinho de Hipona, destrui a ética, porque se um ato não provém do sujeito que atua e se é incapaz de mérito ou demérito polas suas ações, a bondade só pode ser atribuída a Deus e não ao ser humano.

Não só o ato tem que provir do sujeito, senão que também toda ética que se preze tem que estabelecer um sistema de prêmios e castigos razoáveis e proporcionados. Não pode ser que a uma pessoa por roubar uma galinha, lhe cortem as mãos. Pois bem, os castigos no cristianismo são totalmente desproporcionados como se constata por:

  1. O castigo sofrido por toda a humanidade por um pecado supostamente cometido polos supostos pais da humanidade Adão e Eva, que a teoria evolucionista falsou totalmente, por ter desobedecido o preceito de não comer as maças duma determinada árvore. Um castigo semelhante é impróprio de qualquer ser que se chame Deus, pois superaria sadismo a todos os castigos que os seres mais malvados puderam ter imposto alguma vez, porque castiga a todas as gerações futuras por atos cometidos pola suposta primeira parelha humana. É um castigo que excede qualquer proporcionalidade, porque simplesmente por desobedecer o preceito duma prova trampa de que não comessem uma maçã, são castigados com uma pena severíssima, que afeta tanto aos dous membros da parelha e a todos os seus descendentes ainda não nascidos.
  2. Também é inumano e ímpio atribuir a Deus os castigos além túmulo por pecados pessoais, e somente na mente de pessoas sádicas e perversas se pode pensar que Deus inflige penas eternas polo fogo, como as do inferno, porque são impossíveis fisiologicamente. Um ser humano submetido a tais penas, de seguida se converte em cinzas, e, para que isto não acontecesse, Deus teria que mantê-lo milagrosamente com vida para poder castigá-lo. Esta é uma tática clerical para manter amedrontada a população e se submeta de bom grau às suas consignas.
  3. As torturas e cremação de pessoas vivas na fogueiras por discrepâncias ideológicas e com a finalidade de semear o terror na população. Os juízos a que se submetia os acusados eram uma pura farsa, estavam baseados no secretismo dos acusadores para fomentar a delação, na confissão baixo tortura dos acusados, e careciam das mínimas garantias de imparcialidade e objetividade.

Toda ética deve partir duns princípios claros e coerentes a partir dos quais se deduza todas as demais proposições. Uma ética que parte de princípios contraditórios, só pode dar lugar a um amassilho de proposições incoerentes e contraditórias. E isto é o que sucede na ética cristã que umas vezes acode a:

  1. Princípios naturais, como quando alega que o incesto ou a homossexualidade não se pode aceitar porque vai contra as leis da natureza e produz repulsão em quem os praticam. Sabemos que muitos reis antigos cassavam com as suas irmãs, e a endogamia era de terceiro grão era comum nas casas reais europeias, mas deixando o incesto de lado, porque é mais problemático, a homossexualidade é uma prática comum em praticamente todos os animais, tanto os que vivem em cativeiro como em liberdade. Portanto, não se pode condenar recorrendo à natureza, salvo que digamos que os animais não seguem as leis da natureza. A justificação a partir das leis da natureza tem também o inconveniente de que constitui um razoamento lógico inválido porque deduz proposições valorativas a partir de factos naturais, incorrendo na falácia naturalista. É um razoamento incorreto porque a natureza nunca pode ser fonte de valores; de premissas que constam de proposiç4oes fáticas nunca se podem inferir conclusões valorativas; dum «é», nunca se pode concluir um «deve». Aliás, a partir de premissas fundamentadas na natureza humana, que se conhece com o nome de jusnaturalismo ético, podem-se inferir conclusões contraditórias entre si. Assim, os defensores da propriedade privada foi considerada pola maioria dos pensadores jusnaturalistas como de direito natural, mas os defensores do comunismo também se apoiaram nele para defender a sua abolição.
  2. Princípios sobrenaturais provenientes da chamada revelação a partir de livros supostamente inspirados por Deus. Somente acudindo a princípios desta classe se pode suster que o celibato ou a virgindade são superiores ao matrimônio, pois isto somente se pode dizer que é assim porque o diz o homófobo apóstolo Paulo. Somente mediante princípios desta índole se pode justificar o sacrifício de Abraão, de sacrificar ao seu filho Isaac. Estes princípios que chamamos sobrenaturais muitas vezes colidem entre si, e assim se bem no Gênesis e em 20.5, se condena aos primeiros pais e a todos os seus descendentes, polo menos é assim como o interpretou o cristianismo, noutras partes, como em Ez. 18.20 afirma-se que os filhos não devem pagar polos pecados dos seus pais. No Antigo Testamento fomenta-se a natalidade como uma benção divina, mas Jesus recomendou a castração polo reino dos céus (Mt. 19, 12).

Pretender fundamentar a ética em textos supostamente sagrados de faz quatro mil anos teve como consequência o seu ancilosamento, o seu esclerosamento e a sua incapacidade para dar resposta aos problemas éticos do mundo de hoje, como é o caso da homossexualidade, libertação da mulher da sua situação de inferioridade a respeito do varão, práticas de controle da natalidade, da ética animal que na maioria dos casos é ridicularizada por docentes eclesiásticos, etc. Desde uma ética cristã não se pode tampouco dar resposta aos problemas ecológicos, nem nunca a igreja fez nada para resolvê-los, e isto é um falho importante. A Bíblia diz que Deus lhe deu poder ao homem para fazer e desfazer a respeito da vida dos demais seres vivos, ao tempo que condenou como idolátrico o culto à natureza, apesar de que a considera como uma obra divina. As religiões ficam centradas em seres divinos e desprezam este mundo, considerado como um vale de bágoas, e a mesma vida humana. O cristianismo tampouco dá resposta à convivência numa sociedade democrática e sempre esteve muito cômoda com sistemas ditatoriais e repressivos, como foi o caso da Espanha de Franco, levado baixo pálio, do Chile de Pinochet,… sempre fosse beneficiado com as receitas do Estado.

O apoio em princípios sobrenaturais tem também como consequência que, como as preocupações de épocas históricas em que se redigiram os livros sagrados são muito distantes e distintas às atuais, agora as preocupações da ética cristã reduzem-se praticamente a temas relacionados com o sexo, e uns clérigos, eunucos espirituais, polo menos em teoria, misóginos e misossexuais, salvo minorias, lecionam tanto a pessoas que se iniciam nele como aos já experimentados. Muitas vezes, obedecendo precisamente as leis da natureza humana pulsional, quebrantam a absurda norma celibatária que condena qualquer satisfação regrada das pulsões sexuais humanas, e aproveitam para praticas esporádicas de sexo, para violentar as monjas, frequentar os serviços dos bordéis, escapar-lhe com a mulher dos seus próprios fregueses ou para abusar dos mais novos. Os problemas de sexo tampouco se solucionam com a repressão, com a finalidade de manter uma dotação de trabalhadores totalmente entregados e baratos, senão com o reconhecimento do direito dos clérigos a ter uma vida sexual ordenada e formar uma família, se o desejam. Isto provoca que a oposição visceral da hierarquia contra a ideologia de gênero se veja desacreditada. Contudo, há que fazer constar também a conduta íntegra e comprometida com o seu ideal de grande parte dos clérigos, ainda neste contexto.

Finalmente, se a ética é uma avaliação dos atos humanos enquanto bons ou maus, e se toda avaliação é um produto humano, incluída a Bíblia, a única ética admissível é uma ética cívica, dialógica, uma ética que seja expressão das aspirações e necessidades humanas da grande maioria dos membros da sociedade e dos diversos grupos sociais, também dos praticantes religiosos, mas uma ética cívica não aceita que um grupo, por muito numeroso e poderoso que seja, goze de privilégios a eito e pretenda impor-se sobre todos os demais.

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Mulheres, sexo e matrimônio no Alcorão

O Alcorão, inspirado na Bíblia judeu-cristã, amostra também uma doutrina que é profundamente assimétrica no tocante as relações homem mulher. Em muitos versículos de diversos capítulos expõe o Alcorão a normativa referente às mulheres, dos que citaremos os que consideramos mais representativos. Sublinha-se a inferioridade da mulher a respeito do home e esta é a tônica de todo o Alcorão, fundamentada na afirmação bíblica de que a mulher foi feita a partir do varão (Surata 4ª, 1). O homem pode repreender a mulher, mas não ao revês, e, em caso de conflito pode castigá-la, suspender as relações sexuais ou golpeá-la. “Os homes são superiores às mulheres, porque Deus lhe outorgou a preeminência sobre elas e porque as dotam com os seus bens. As mulheres devem ser obedientes e guardar os secretos dos seus esposos, pois o céu confiou-lhes a sua custódia. Os maridos que sofram desobediência das suas esposas podem castigá-las, deixá-las sozinhas nos seus leitos e incluso golpeá-las” (Surata IV, 34 (38); Cf. Surata 2ª, 228). Se utilizarmos o valor dos bens a que têm direito na herança os homes e as mulheres como critério, duas mulheres teriam o mesmo valor que um home. (S. 4ª, 12). A legislação alcorânica favorece a drenagem de recursos das mulheres para os homens. Ademais de herdar o dobre que a mulher, o homem herda a metade dos bens da mulher morta, enquanto que a mulher somente pode herdar a quarta parte dos bens do seu homem morto. Esta drenagem de recursos leva aparelhada a obrigação de dotar as esposas e, consequentemente, a criação duma sociedade patriarcal.

Em caso de dissensão entre homem e mulher, a solução deixar-se-ia em mão dum juiz de cada parte. (4ª Surata, 35) Se a mulher teme a aversão e a violência do seu marido, ninguém faz mal se se compõem amigavelmente, o qual é preferível à separação (Surata 4ª, 127 (128)). O marido não pode amar a todas as mulheres por igual, e, para evitar conflitos entre as esposas, não deve entregar-se totalmente a aquela que ama, abandonando a outra (Surata 4ª, 128 (129)).

Igual que no judaísmo e cristianismo, o islamismo considera que o comércio sexual é algo impuro, e isso explica que os crentes têm que purificar-se depois das relações sexuais (Surata 5ª, 7; Cf. Surata 4ª, 46 (43)); no caso da mulher, volve-se impura pola função fisiológica da menstruação da mulher, e, por isso, necessita também purificar-se depois dela. “Consultar-te-ão acerca da menstruação; dize-lhes: É uma impureza. Abstende-vos, pois, das mulheres durante a menstruação e não vos acerqueis delas até que se purifiquem; quando estiverem purificadas, aproximai-vos então delas, como Deus vos tem disposto, porque Ele estima os que se arrependem e cuidam da purificação” (Surata II, 222).

O islamismo consagrou a prática da poligínia, vigorante na sociedade hebreia, mas abolida por Jesus, e, portanto, não aceita a limitação do Gênesis de que Deus os fez macho e fêmea. Um muçulmano poderá casar com uma não muçulmana nas mesmas condições que com uma muçulmana, mas uma muçulmana não poderá casar com um não muçulmano porque o seu status religioso se veria afetado porque a esposa tem que seguir o status do esposo. (Surata 5ª, 6 (5)).  O número de esposas somente vem limitado pola capacidade econômica, polos sentimentos humanitários a respeito dos órfãos e viúvas como resultado das guerras, e pola possibilidade de dar-lhe a todas elas um trato equitativo. “Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro mulheres de entre as que vos aprouver. Mas, se temerdes não poder ser eqüitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou conformai-vos com as escravas que tendes à mão. Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças” (4ª Surata,  3). A pessoa que não seja bastante rico para desposar mulheres livres, tomará por esposas a escravas fieis (Surata 4ª, 25 (29)).

O profeta tem um trato privilegiado no referente ao número de esposas. No versículo 49 da Surata 33ª estabelece uma isenção ou privilégio na limitação do número de mulheres para o profeta, que somente se vê limitado polo facto de tê-las dotados. Portanto, o número de esposas vem determinado, em primeiro lugar, polas disponibilidades econômicas, facto que alguns justificam polos seus sentimentos e compaixão para com as viúvas e à ajuda delas para com o seu dever de liderança junto às mulheres, mas se estes são os motivos seria uma irresponsabilidade não permitir que todos possam cumprir com os citados motivos. Também pode tomar como esposas as cativas, as coirmãs que migraram com ele e as crentes que se dedicam ao Profeta. “Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas dotado, assim como as que a tua mão direita possui (cativas), que Deus tenha feito cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e tias paternas, as filhas de teus tios e tias maternas, que migraram contigo, bem como toda a mulher fiel que se dedicar ao Profeta, por gosto, e uma vez que o Profeta queira desposá-la; este é um privilégio exclusivo teu, vedado aos demais fiéis” (Surata 49 (52)). Além deste número fixado de esposas, não lhe está permitido desposar outras nem trocar umas mulheres por outras. “Alem dessas não te será permitido casares com outras, nem trocá-las por outras mulheres, ainda que suas belezas te encantarem, com exceção das que a tua mão direita possua. E Deus é Observador de tudo” (Surata 33 ª. 54).

A mulher, dado que é pensada em função do varão, deve procurar agradar-lhe e mostrar-se casta em todo momento, e tampouco tocante a isto se impõe nada parecido para o varão. “Ordena às mulheres baixar o rosto, conservar a sua pureza, não mostrar os seus corpos senão a aqueles que devam vê-los” (Surata 24ª, 31). Nas relações sexuais, as mulheres do Profeta ficam ao seu arbítrio. “Ti fazes esperar à que queiras de entre elas e ti acolhes contigo a que queiras. Tampouco se te faz nenhuma queixa se convidas à tua casa a uma das que tinhas descartado. Eis o que é mais acertado para alegrá-las, para evitar-lhes toda pena e para lhe fazer aceitar do bom grau o que lhes destes a todas” (Surata 33ª, 51). Tampouco poderá o profeta cambiar as suas mulheres por outras (Surata 33ª, 52)

A frequência das relações sexuais marca-as o home unilateralmente e a mulher tem que estar disponível para quando o home o deseje. A mulher é comparada com um campo de lavoura à que o homem pode ir quando lhe apraz, sem limitações de nenhuma classe, e a mulher tem a obrigação de mostrar uma disposição total e o único preceito que se lhe impõe ao homem é que faça antes boas obras. “Vossas mulheres são vossas semeaduras. Desfrutai, pois, da vossa semeadura, como vos apraz; porém, praticai boas obras antecipadamente, temei a Deus e sabei que compareceis perante Ele” ( Surata, 223). Os que não mantêm relações sexuais com a sua mulher têm um prazo de quatro meses para revocar a sua decisão ou decidir divorciar-se (Surata IV, 226-227). Nos dias de jejum, somente se podem ter relações sexuais pola noite. (2ª Surata, 183).

Da desigualdade entre os membros da parelha deduzem-se direitos e deveres dispares. Uma vez visto como se constitui uma família, imos ver como se pode desconstruir. Também, neste âmbito, toda a iniciativa lhe corresponde ao varão. O repúdio somente pode ser exercitado polo varão, e está limitado a duas vezes (Surata 2ª, 229). Quem a repudie três vezes somente pode volver a tomá-la depois de passar polo leito doutro esposo (Surata 2ª, 230). A mulher repudiada tem que deixar três meses antes de tomar novo marido (Surata 2ª, 228, e 232). O marido pode repudiar livremente à mulher e não se prevê no Alcorão uma medida simétrica da mulher a respeito do homem. Se um home repudia uma mulher antes de ter relações sexuais com ela, a mulher pode casar sem estar limitada polo prazo de três meses, além de ter que dar-lhe um donativo, que não se precisa, e sem travas à sua liberdade. “Ó fiéis, se vos casardes com as fiéis e as repudiardes, antes de haverde-las tocado, não lhes exijais o cumprimento do término estabelecido; dai-lhes um presente, outrossim, e libertai-as decorosamente” (Surata 33, 48ª; verso 228 da 2ª surata). Neste caso, se tampouco lhe tiver assinado nenhum dote, o marido não está submetido a nenhuma pena (Surata 2ª, 237).

Outra das possibilidades de ruptura da convivência é o adultério da mulher. “Se alguma das vossas mulheres cometeu adultério, chamai a quatro testemunhas. E se os seus testemunhos são unânimes contra ela, encerrai-a na vossa casa até que a morte ponha fim aos seus dias, ou Deus lhe proporcione algum meio de salvação” (Surata 4ª, 19 (15)). Um castigo desproporcionado à falta cometida e que não se aplica ao home que comete a  mesma falta. Os adúlteros só podem casar com outra pessoa adúltera ou com uma idólatra (Surata 24ª, 3). Os que acusem de adúltera a uma mulher virtuosa são fortemente punidos. “E àqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem quatro testemunhas, infligi-lhes oitenta vergastadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos, porque são depravados” (Surata 24ª, 4). Se não acarretam quatro testemunhas jurarão quatro vezes, no nome de Deus, que o seu testemunho é autêntico,e a mulher livrar-se-á dos castigos com o mesmo juramento. (Suratas 6 e 8), e o quinto juramento será uma imprecação sobre eles mesmos se são perjuros (Surata 24, 7 e 9).

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Mulher, sexo e matrimônio nos escritos apostólicos (II)

Inferioridade e submissão da mulher

            Uma das ideias mais recorrentes do Novo Testamento é a do submissão da mulher ao homem, a qual, depois de enorme insistência e repressão, terminou por ser interiorizada tanto polos varões, convertidos em repressores, como pola mulher, que viu anulada a sua personalidade. São Paulo quer que as mulheres de Corinto evitem assistir sem véu à igreja, que ele considera um abuso que se opõe às tradições ou ensinança catequética que ele lhes transmitiu. Aproveita esta prática para deixar bem assentada a inferioridade da mulher com respeito ao varão que ele fundamenta em considerações místicas, à margem de qualquer fundamentação racional e, com esta finalidade, elabora um sistema piramidal, para dar uma forma mais claramente misógina ao relato do Gênesis incorporando a ele a Cristo, na que os elos de major a menor perfeição e hierarquia são: Deus-Cristo-homem-mulher. “Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo” (I Cor. 11, 3). Esta hierarquização, com a conseguinte subordinação e dependência da mulher, obedece, pois, a desígnios divinos e, portanto, não se pode quebrantar, como sucederia se o homem assistisse à igreja com a cabeça coberta e a mulher com ela descoberta, pois, neste caso, a mulher ousaria fazer-se igual ao varão, o qual é totalmente inadmissível, para Paulo. Nesta mística paulina, totalmente gratuita e infundada, a mulher fica descabeçada, sem pensamento próprio, reduzida a uma cabeça de «chorlito», que somente pode pensar pola mente do varão.

A seguir realiza o apostolo Paulo toda uma série de afirmações para apoiar as suas teses, carentes do mais mínimo rigor, a respeito da desonra da sua cabeça, pois o que desonra não são as vestes, mas a atitude perante a divindade ou perante os outros seres humanos e todo o demais são convenções sociais criadas polos que dominam para distinguir-se dos demais e sacralizar o seu sistema de dominação sobre eles, labor que, neste caso, é realizada polos relatos bíblicos do Gênesis, que agora adquirem em Paulo uma nova ratificação. O apóstolo considera que se o homem se cobre e a mulher se descobre não mostrariam o plano hierárquico de dominação estabelecido por Deus que é o citado: Deus-Cristo-varão-fêmea. O homem, se se cobrisse não refletiria a glória de Cristo, e a mulher, se não se cobrisse, pretenderia igualar-se ao varão. O homem é imagem e glória de Deus e a mulher é imagem do homem, um reflexo sempre pálido da autêntica realidade. A razão de todo isto é que a mulher proveu do homem, enquanto que o homem proveu de Deus; este foi criado por si mesmo, enquanto que a mulher foi criada a causa do varão, o qual lhe permite concluir que somente o homem é imagem e glória de Deus, enquanto que a mulher é glória do homem, e, por isso, deve cobrir-se em sinal de submissão ao varão, que é já o paroxismo da misoginia, ou senão rapar-se. “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma cousa como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveu da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos” (I Cor. 11, 4-10). Em vez dos anjos deveria dizer em interesse dos misóginos celibatários. O Gênesis não precisa claramente se a mulher é ou não imagem de Deus, cousa que sim faz agora o apóstolo Paulo, limitando a imagem de Deus ao sexo masculino.

Para intentar remendar o seu discurso profundamente misógino e consolar a mulher acrescentando que “nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus” (I Cor. 11, 11-12), mas pouca independência pode ter um ser que está totalmente submetido a outro e carece de total autonomia. A seguir, Paulo dá-lhe voz aos coríntios para que julguem se convém que a mulher ore com a cabeça descoberta, pretendendo inclinar o seu juízo polo não em base a que já a natureza nos ensina que é uma desonra para o homem ter os cabelos longos enquanto que é uma desonra para a mulher não tê-los longos. “julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véuI Cor. 11, 13-15). É evidente que a natureza não ensina nada, senão que somente adquire sentido mercê à atividade avaliadora do ser humano. O que desonram são as condutas e atitudes incorretas para com os demais seres humanos, os restantes seres vivos, a natureza inerte, mas nunca os cabelos longos ou curtos. Se a cabeleira lhe foi dada por véu, por que ao homem, que também tem cabeleira, se não se rapa ou lhe cai o pelo, também lhe seria dada por véu. Aliás, se a cabeleira lhe foi dada por véu à mulher, por que precisa outro véu a maiores?

De acordo com as pautas acima estabelecidas, Paulo atua coerentemente exigindo que as mulheres calem na igreja, obedeçam e perguntem-lhes aos maridos se querem aprender. “as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma cousa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja” (I Cor. 14, 34-35). É uma mágoa que não precise Paulo por que para ela é indecoroso falar na igreja, enquanto que para o homem não.

Tanto nas cartas atribuídas erroneamente a Paulo como nas epístolas denominadas católicas, mantém-se esta tendência misógina de clara subordinação da mulher a respeito do homem. Na carta pseudoepigráfica dirigida aos efésios no ano 62, o seu autor insiste no tema da submissão da mulher ao marido «em todo» e, a câmbio, aos homens aconselha-lhe que as amem. “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo aos seus maridos. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5, 22-25). A expressão «em tudo» deveria desaparecer de qualquer relato em que se fale da relação dum ser humano com outro. Se o homem lhe indica que tem que matar a outro ser humano, deve ela obedecer? Estaria ela eximida do delito de homicídio ou assassinato alegando que atuou por obediência devida? Isto é totalmente inaceitável. O home deve amar a mulher e esta reverenciar ao marido (Ef. 5, 32), e as mulheres idosas devem ensinar as jovens a amar os seus maridos (Tit. 2, 4-5). Também se insiste na submissão na Carta aos Colossenses, escrita no ano 62 e de autenticidade duvidosa. “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não as trateis asperamente” (Col. 3. 18-19).

O autor da I Carta a Timóteo, escrita arredor do ano 100, amostra-se mais rude e imperativo e justifica a inferioridade da mulher no facto de que Adão foi criado primeiro e em que Eva atuou como sedutora para induzi-lo a pecar . “A mulher aprenda em silêncio com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o home, senão estar em silêncio“ (I Tim. 2, 11-12), e justifica-o aludindo ao invento do pecado do paraíso e oferece-lhe como saída parir filhos e ser boa. “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação” (I Tim. 2, 13-15) . E postos a ordenar, também lhe prescreve como devem vestir. “que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos” (I Tim. 2, 9). Tanto os bispos como os diáconos devem ser maridos de uma só mulher, e as mulheres devem ter as virtudes dos subordinados: “sérias, não maldizentes, temperantes, e fiéis em tudo” (I Tim.  3, 11). Não se deve eleger nenhuma viúva menor de sessenta anos, porque “quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação por haverem violado a primeira fé; e, além disto, aprendem também a ser ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas também faladeiras e intrigantes, falando o que não convém. Quero pois que as mais novas se casem, tenham filhos, dirijam a sua casa, e não dêem ocasião ao adversário de maldizer” (I Tim. 5, 11-15).

Na I Carta de Pedro, pseudoepigráfica, escrita arredor do ano 65 e.c. insiste-se também na submissão das mulheres aos homes para que “se alguns deles não obedecem a palavra, sejam salvos pola conduta das suas mulheres, considerando a vossa vida casta em temor” (I Ped. 3. 1-2). Imitando as mulheres dos patriarcas, o seu adorno não deve ser o enfeite exterior, senão o íntimo do coração. E a conduta do marido deve ser a da compreensão, tratando-as como vaso frágil.

Estes são os relatos bíblicos que os clérigos ousam afirmar que foram inspirados por Deus, por mais que não exista neles nenhum indício sério que indique que é assim. Estes relatos, esclerosados e convertidos em imutáveis e, pretensamente, na expressão da autêntica verdade, acarretaram enorme dor, sofrimento e alienação a mais de meia humanidade que viveu no mundo cristão e de algumas outras religiões. Esta cosmovisão deve mudar-se por outra que reconheça que as religiões positivas são também produtos humanos, criados para iluminar, dirigir, submeter, consolar e dar esperança aos seres humanos, úteis quiçá nalgum momento passado, mas que hoje são uma rêmora para a sua libertação e reconciliação consigo mesmo.

 

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