Mulheres, sexo e matrimônio no Alcorão

O Alcorão, inspirado na Bíblia judeu-cristã, amostra também uma doutrina que é profundamente assimétrica no tocante as relações homem mulher. Em muitos versículos de diversos capítulos expõe o Alcorão a normativa referente às mulheres, dos que citaremos os que consideramos mais representativos. Sublinha-se a inferioridade da mulher a respeito do home e esta é a tônica de todo o Alcorão, fundamentada na afirmação bíblica de que a mulher foi feita a partir do varão (Surata 4ª, 1). O homem pode repreender a mulher, mas não ao revês, e, em caso de conflito pode castigá-la, suspender as relações sexuais ou golpeá-la. “Os homes são superiores às mulheres, porque Deus lhe outorgou a preeminência sobre elas e porque as dotam com os seus bens. As mulheres devem ser obedientes e guardar os secretos dos seus esposos, pois o céu confiou-lhes a sua custódia. Os maridos que sofram desobediência das suas esposas podem castigá-las, deixá-las sozinhas nos seus leitos e incluso golpeá-las” (Surata IV, 34 (38); Cf. Surata 2ª, 228). Se utilizarmos o valor dos bens a que têm direito na herança os homes e as mulheres como critério, duas mulheres teriam o mesmo valor que um home. (S. 4ª, 12). A legislação alcorânica favorece a drenagem de recursos das mulheres para os homens. Ademais de herdar o dobre que a mulher, o homem herda a metade dos bens da mulher morta, enquanto que a mulher somente pode herdar a quarta parte dos bens do seu homem morto. Esta drenagem de recursos leva aparelhada a obrigação de dotar as esposas e, consequentemente, a criação duma sociedade patriarcal.

Em caso de dissensão entre homem e mulher, a solução deixar-se-ia em mão dum juiz de cada parte. (4ª Surata, 35) Se a mulher teme a aversão e a violência do seu marido, ninguém faz mal se se compõem amigavelmente, o qual é preferível à separação (Surata 4ª, 127 (128)). O marido não pode amar a todas as mulheres por igual, e, para evitar conflitos entre as esposas, não deve entregar-se totalmente a aquela que ama, abandonando a outra (Surata 4ª, 128 (129)).

Igual que no judaísmo e cristianismo, o islamismo considera que o comércio sexual é algo impuro, e isso explica que os crentes têm que purificar-se depois das relações sexuais (Surata 5ª, 7; Cf. Surata 4ª, 46 (43)); no caso da mulher, volve-se impura pola função fisiológica da menstruação da mulher, e, por isso, necessita também purificar-se depois dela. “Consultar-te-ão acerca da menstruação; dize-lhes: É uma impureza. Abstende-vos, pois, das mulheres durante a menstruação e não vos acerqueis delas até que se purifiquem; quando estiverem purificadas, aproximai-vos então delas, como Deus vos tem disposto, porque Ele estima os que se arrependem e cuidam da purificação” (Surata II, 222).

O islamismo consagrou a prática da poligínia, vigorante na sociedade hebreia, mas abolida por Jesus, e, portanto, não aceita a limitação do Gênesis de que Deus os fez macho e fêmea. Um muçulmano poderá casar com uma não muçulmana nas mesmas condições que com uma muçulmana, mas uma muçulmana não poderá casar com um não muçulmano porque o seu status religioso se veria afetado porque a esposa tem que seguir o status do esposo. (Surata 5ª, 6 (5)).  O número de esposas somente vem limitado pola capacidade econômica, polos sentimentos humanitários a respeito dos órfãos e viúvas como resultado das guerras, e pola possibilidade de dar-lhe a todas elas um trato equitativo. “Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro mulheres de entre as que vos aprouver. Mas, se temerdes não poder ser eqüitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou conformai-vos com as escravas que tendes à mão. Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças” (4ª Surata,  3). A pessoa que não seja bastante rico para desposar mulheres livres, tomará por esposas a escravas fieis (Surata 4ª, 25 (29)).

O profeta tem um trato privilegiado no referente ao número de esposas. No versículo 49 da Surata 33ª estabelece uma isenção ou privilégio na limitação do número de mulheres para o profeta, que somente se vê limitado polo facto de tê-las dotados. Portanto, o número de esposas vem determinado, em primeiro lugar, polas disponibilidades econômicas, facto que alguns justificam polos seus sentimentos e compaixão para com as viúvas e à ajuda delas para com o seu dever de liderança junto às mulheres, mas se estes são os motivos seria uma irresponsabilidade não permitir que todos possam cumprir com os citados motivos. Também pode tomar como esposas as cativas, as coirmãs que migraram com ele e as crentes que se dedicam ao Profeta. “Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas dotado, assim como as que a tua mão direita possui (cativas), que Deus tenha feito cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e tias paternas, as filhas de teus tios e tias maternas, que migraram contigo, bem como toda a mulher fiel que se dedicar ao Profeta, por gosto, e uma vez que o Profeta queira desposá-la; este é um privilégio exclusivo teu, vedado aos demais fiéis” (Surata 49 (52)). Além deste número fixado de esposas, não lhe está permitido desposar outras nem trocar umas mulheres por outras. “Alem dessas não te será permitido casares com outras, nem trocá-las por outras mulheres, ainda que suas belezas te encantarem, com exceção das que a tua mão direita possua. E Deus é Observador de tudo” (Surata 33 ª. 54).

A mulher, dado que é pensada em função do varão, deve procurar agradar-lhe e mostrar-se casta em todo momento, e tampouco tocante a isto se impõe nada parecido para o varão. “Ordena às mulheres baixar o rosto, conservar a sua pureza, não mostrar os seus corpos senão a aqueles que devam vê-los” (Surata 24ª, 31). Nas relações sexuais, as mulheres do Profeta ficam ao seu arbítrio. “Ti fazes esperar à que queiras de entre elas e ti acolhes contigo a que queiras. Tampouco se te faz nenhuma queixa se convidas à tua casa a uma das que tinhas descartado. Eis o que é mais acertado para alegrá-las, para evitar-lhes toda pena e para lhe fazer aceitar do bom grau o que lhes destes a todas” (Surata 33ª, 51). Tampouco poderá o profeta cambiar as suas mulheres por outras (Surata 33ª, 52)

A frequência das relações sexuais marca-as o home unilateralmente e a mulher tem que estar disponível para quando o home o deseje. A mulher é comparada com um campo de lavoura à que o homem pode ir quando lhe apraz, sem limitações de nenhuma classe, e a mulher tem a obrigação de mostrar uma disposição total e o único preceito que se lhe impõe ao homem é que faça antes boas obras. “Vossas mulheres são vossas semeaduras. Desfrutai, pois, da vossa semeadura, como vos apraz; porém, praticai boas obras antecipadamente, temei a Deus e sabei que compareceis perante Ele” ( Surata, 223). Os que não mantêm relações sexuais com a sua mulher têm um prazo de quatro meses para revocar a sua decisão ou decidir divorciar-se (Surata IV, 226-227). Nos dias de jejum, somente se podem ter relações sexuais pola noite. (2ª Surata, 183).

Da desigualdade entre os membros da parelha deduzem-se direitos e deveres dispares. Uma vez visto como se constitui uma família, imos ver como se pode desconstruir. Também, neste âmbito, toda a iniciativa lhe corresponde ao varão. O repúdio somente pode ser exercitado polo varão, e está limitado a duas vezes (Surata 2ª, 229). Quem a repudie três vezes somente pode volver a tomá-la depois de passar polo leito doutro esposo (Surata 2ª, 230). A mulher repudiada tem que deixar três meses antes de tomar novo marido (Surata 2ª, 228, e 232). O marido pode repudiar livremente à mulher e não se prevê no Alcorão uma medida simétrica da mulher a respeito do homem. Se um home repudia uma mulher antes de ter relações sexuais com ela, a mulher pode casar sem estar limitada polo prazo de três meses, além de ter que dar-lhe um donativo, que não se precisa, e sem travas à sua liberdade. “Ó fiéis, se vos casardes com as fiéis e as repudiardes, antes de haverde-las tocado, não lhes exijais o cumprimento do término estabelecido; dai-lhes um presente, outrossim, e libertai-as decorosamente” (Surata 33, 48ª; verso 228 da 2ª surata). Neste caso, se tampouco lhe tiver assinado nenhum dote, o marido não está submetido a nenhuma pena (Surata 2ª, 237).

Outra das possibilidades de ruptura da convivência é o adultério da mulher. “Se alguma das vossas mulheres cometeu adultério, chamai a quatro testemunhas. E se os seus testemunhos são unânimes contra ela, encerrai-a na vossa casa até que a morte ponha fim aos seus dias, ou Deus lhe proporcione algum meio de salvação” (Surata 4ª, 19 (15)). Um castigo desproporcionado à falta cometida e que não se aplica ao home que comete a  mesma falta. Os adúlteros só podem casar com outra pessoa adúltera ou com uma idólatra (Surata 24ª, 3). Os que acusem de adúltera a uma mulher virtuosa são fortemente punidos. “E àqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem quatro testemunhas, infligi-lhes oitenta vergastadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos, porque são depravados” (Surata 24ª, 4). Se não acarretam quatro testemunhas jurarão quatro vezes, no nome de Deus, que o seu testemunho é autêntico,e a mulher livrar-se-á dos castigos com o mesmo juramento. (Suratas 6 e 8), e o quinto juramento será uma imprecação sobre eles mesmos se são perjuros (Surata 24, 7 e 9).

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Mulher, sexo e matrimônio nos escritos apostólicos (II)

Inferioridade e submissão da mulher

            Uma das ideias mais recorrentes do Novo Testamento é a do submissão da mulher ao homem, a qual, depois de enorme insistência e repressão, terminou por ser interiorizada tanto polos varões, convertidos em repressores, como pola mulher, que viu anulada a sua personalidade. São Paulo quer que as mulheres de Corinto evitem assistir sem véu à igreja, que ele considera um abuso que se opõe às tradições ou ensinança catequética que ele lhes transmitiu. Aproveita esta prática para deixar bem assentada a inferioridade da mulher com respeito ao varão que ele fundamenta em considerações místicas, à margem de qualquer fundamentação racional e, com esta finalidade, elabora um sistema piramidal, para dar uma forma mais claramente misógina ao relato do Gênesis incorporando a ele a Cristo, na que os elos de major a menor perfeição e hierarquia são: Deus-Cristo-homem-mulher. “Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo” (I Cor. 11, 3). Esta hierarquização, com a conseguinte subordinação e dependência da mulher, obedece, pois, a desígnios divinos e, portanto, não se pode quebrantar, como sucederia se o homem assistisse à igreja com a cabeça coberta e a mulher com ela descoberta, pois, neste caso, a mulher ousaria fazer-se igual ao varão, o qual é totalmente inadmissível, para Paulo. Nesta mística paulina, totalmente gratuita e infundada, a mulher fica descabeçada, sem pensamento próprio, reduzida a uma cabeça de «chorlito», que somente pode pensar pola mente do varão.

A seguir realiza o apostolo Paulo toda uma série de afirmações para apoiar as suas teses, carentes do mais mínimo rigor, a respeito da desonra da sua cabeça, pois o que desonra não são as vestes, mas a atitude perante a divindade ou perante os outros seres humanos e todo o demais são convenções sociais criadas polos que dominam para distinguir-se dos demais e sacralizar o seu sistema de dominação sobre eles, labor que, neste caso, é realizada polos relatos bíblicos do Gênesis, que agora adquirem em Paulo uma nova ratificação. O apóstolo considera que se o homem se cobre e a mulher se descobre não mostrariam o plano hierárquico de dominação estabelecido por Deus que é o citado: Deus-Cristo-varão-fêmea. O homem, se se cobrisse não refletiria a glória de Cristo, e a mulher, se não se cobrisse, pretenderia igualar-se ao varão. O homem é imagem e glória de Deus e a mulher é imagem do homem, um reflexo sempre pálido da autêntica realidade. A razão de todo isto é que a mulher proveu do homem, enquanto que o homem proveu de Deus; este foi criado por si mesmo, enquanto que a mulher foi criada a causa do varão, o qual lhe permite concluir que somente o homem é imagem e glória de Deus, enquanto que a mulher é glória do homem, e, por isso, deve cobrir-se em sinal de submissão ao varão, que é já o paroxismo da misoginia, ou senão rapar-se. “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma cousa como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveu da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos” (I Cor. 11, 4-10). Em vez dos anjos deveria dizer em interesse dos misóginos celibatários. O Gênesis não precisa claramente se a mulher é ou não imagem de Deus, cousa que sim faz agora o apóstolo Paulo, limitando a imagem de Deus ao sexo masculino.

Para intentar remendar o seu discurso profundamente misógino e consolar a mulher acrescentando que “nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus” (I Cor. 11, 11-12), mas pouca independência pode ter um ser que está totalmente submetido a outro e carece de total autonomia. A seguir, Paulo dá-lhe voz aos coríntios para que julguem se convém que a mulher ore com a cabeça descoberta, pretendendo inclinar o seu juízo polo não em base a que já a natureza nos ensina que é uma desonra para o homem ter os cabelos longos enquanto que é uma desonra para a mulher não tê-los longos. “julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véuI Cor. 11, 13-15). É evidente que a natureza não ensina nada, senão que somente adquire sentido mercê à atividade avaliadora do ser humano. O que desonram são as condutas e atitudes incorretas para com os demais seres humanos, os restantes seres vivos, a natureza inerte, mas nunca os cabelos longos ou curtos. Se a cabeleira lhe foi dada por véu, por que ao homem, que também tem cabeleira, se não se rapa ou lhe cai o pelo, também lhe seria dada por véu. Aliás, se a cabeleira lhe foi dada por véu à mulher, por que precisa outro véu a maiores?

De acordo com as pautas acima estabelecidas, Paulo atua coerentemente exigindo que as mulheres calem na igreja, obedeçam e perguntem-lhes aos maridos se querem aprender. “as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma cousa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja” (I Cor. 14, 34-35). É uma mágoa que não precise Paulo por que para ela é indecoroso falar na igreja, enquanto que para o homem não.

Tanto nas cartas atribuídas erroneamente a Paulo como nas epístolas denominadas católicas, mantém-se esta tendência misógina de clara subordinação da mulher a respeito do homem. Na carta pseudoepigráfica dirigida aos efésios no ano 62, o seu autor insiste no tema da submissão da mulher ao marido «em todo» e, a câmbio, aos homens aconselha-lhe que as amem. “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo aos seus maridos. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5, 22-25). A expressão «em tudo» deveria desaparecer de qualquer relato em que se fale da relação dum ser humano com outro. Se o homem lhe indica que tem que matar a outro ser humano, deve ela obedecer? Estaria ela eximida do delito de homicídio ou assassinato alegando que atuou por obediência devida? Isto é totalmente inaceitável. O home deve amar a mulher e esta reverenciar ao marido (Ef. 5, 32), e as mulheres idosas devem ensinar as jovens a amar os seus maridos (Tit. 2, 4-5). Também se insiste na submissão na Carta aos Colossenses, escrita no ano 62 e de autenticidade duvidosa. “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não as trateis asperamente” (Col. 3. 18-19).

O autor da I Carta a Timóteo, escrita arredor do ano 100, amostra-se mais rude e imperativo e justifica a inferioridade da mulher no facto de que Adão foi criado primeiro e em que Eva atuou como sedutora para induzi-lo a pecar . “A mulher aprenda em silêncio com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o home, senão estar em silêncio“ (I Tim. 2, 11-12), e justifica-o aludindo ao invento do pecado do paraíso e oferece-lhe como saída parir filhos e ser boa. “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação” (I Tim. 2, 13-15) . E postos a ordenar, também lhe prescreve como devem vestir. “que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos” (I Tim. 2, 9). Tanto os bispos como os diáconos devem ser maridos de uma só mulher, e as mulheres devem ter as virtudes dos subordinados: “sérias, não maldizentes, temperantes, e fiéis em tudo” (I Tim.  3, 11). Não se deve eleger nenhuma viúva menor de sessenta anos, porque “quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação por haverem violado a primeira fé; e, além disto, aprendem também a ser ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas também faladeiras e intrigantes, falando o que não convém. Quero pois que as mais novas se casem, tenham filhos, dirijam a sua casa, e não dêem ocasião ao adversário de maldizer” (I Tim. 5, 11-15).

Na I Carta de Pedro, pseudoepigráfica, escrita arredor do ano 65 e.c. insiste-se também na submissão das mulheres aos homes para que “se alguns deles não obedecem a palavra, sejam salvos pola conduta das suas mulheres, considerando a vossa vida casta em temor” (I Ped. 3. 1-2). Imitando as mulheres dos patriarcas, o seu adorno não deve ser o enfeite exterior, senão o íntimo do coração. E a conduta do marido deve ser a da compreensão, tratando-as como vaso frágil.

Estes são os relatos bíblicos que os clérigos ousam afirmar que foram inspirados por Deus, por mais que não exista neles nenhum indício sério que indique que é assim. Estes relatos, esclerosados e convertidos em imutáveis e, pretensamente, na expressão da autêntica verdade, acarretaram enorme dor, sofrimento e alienação a mais de meia humanidade que viveu no mundo cristão e de algumas outras religiões. Esta cosmovisão deve mudar-se por outra que reconheça que as religiões positivas são também produtos humanos, criados para iluminar, dirigir, submeter, consolar e dar esperança aos seres humanos, úteis quiçá nalgum momento passado, mas que hoje são uma rêmora para a sua libertação e reconciliação consigo mesmo.

 

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Mulher, sexo e matrimônio nos escritos apostólicos (I)

O sexo e matrimônio

O apóstolo Paulo, cidadão romano, nasceu no seio duma família religiosa ligada ao farisaísmo e tinha por ofício fabricante de tendas. De personalidade rígida, desequilibrada e intransigente e de tendência misógina, a sua doutrina vai converter-se no eixo da ideologia do cristianismo triunfante, que assumiria várias das suas teses, entre elas o desprezo pola mulher e polo sexo.

Na I Carta ao Tessalonicenses, 4, 3-6, escrita no ano 50 e.c., Paulo dá-lhe vários preceitos, entre eles, o primeiro relativo à pureza e à santidade, que implica abster-se da fornicação, ou seja, de toda relação sexual fora do matrimônio, favorecer a santidade e honra da própria mulher, preservando a castidade conjugal, e não fazer injúria ao próximo procurando satisfazer os desejos carnais com a mulher deste. “Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição, que cada um de vós saiba possuir o seu vaso (a sua mulher) em santidade e honra, não na paixão da concupiscência, como os gentios que não conhecem a Deus; ninguém iluda ou defraude nisso a seu irmão, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos”. A contraposição entre o mundo judeu-cristão e o mundo pagão é apresentada como a raça dos puros frente aos dominados pola paixão sexual.

Na I Carta aos Coríntios, escrita no ano 53 e.c., Paulo responde a diversas questões que lhe fizeram os cristãos desta localidade a respeito do matrimônio, imbuídos por um rígido ascetismo com uma ideologia hostil ao sexo, que consideravam que, de ser celibatários, não deviam casar, e se estavam casados deviam praticar a continência sexual ou separar-se. Para Paulo, as relações sexuais não são boas e cumpre evitá-las, mas é pior a fornicação. Ele opta polo celibato como ideal e considera o matrimônio como um estado prescindível em si, salvo como remédio da concupiscência. “Ora, quanto às coisas de que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher; mas, por causa da prostituição, tenha cada homem sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido”. (7, 1-2). Aceites estas premissas, Paulo ordena que ambos os esposos paguem o débito conjugal mutuamente, satisfazendo os impulsos recíprocos, decidindo cada um do corpo do outro membro da parelha e sem negar-se um ao outro, salvo, de comum acordo, para permitir o desempenho das tarefas religiosas. “O marido pague à mulher o que lhe é devido, e do mesmo modo a mulher ao marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e também da mesma sorte o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não vos negueis um ao outro, senão de comum acordo por algum tempo, a fim de vos aplicardes à oração e depois vos ajuntardes outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência” 7, 3-5). Aclara a seguir, (7, 6-9) que o que disse sobre o uso do matrimônio o diz a modo de condescendência, e não como um mandado, e prefere que todos sejam como ele, ou seja, que pratiquem o celibato, que é preferível ao matrimônio, mas se não podem, que se casem. “Digo isto, porém, como que por concessão e não por mandamento. Contudo queria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um deste modo, e outro daquele. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”. A sociedade ideal é uma comunidade de monges na que não existam as relações sexuais.

A seguir, prescreve, como o fez Jesus, o monogamia, sem que o marido abandone a mulher nem esta o marido, mas deixando a porta aberta a que a mulher abandone o marido para manter-se celibatária. “Aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido; se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (7, 10-11). O matrimônio entre cristãos é indissolúvel, mas o matrimônio entre cristão e infiel pode dissolver-se se este o decide. “Mas aos outros digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher incrédula, e ela consente em habitar com ele, não se separe dela. E se alguma mulher tem marido incrédulo, e ele consente em habitar com ela, não se separe dele. Porque o marido incrédulo é santificado pela mulher, e a mulher incrédula é santificada pelo marido crente; de outro modo, os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos. Mas, se o incrédulo se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou a irmã, não está sujeito à servidão; pois Deus nos chamou em paz”. (7, 12-15).

Num clima de preocupação apocalíptica que considerava que o fim do mundo está próximo, Paulo ordena manter-se na situação em que cada um está. A respeito da virgindade não ordena senão que aconselha ficar no estado atual de cada um, ainda que mantendo que a virgindade é superior ao matrimônio, desaconselhado por ele polas tribulações da carne que ele quer evitar aos seus seguidores. “Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel. Acho, pois, que é bom, por causa da instante necessidade, que a pessoa fique como está. Estás ligado a mulher? não procures separação. Estás livre de mulher? não procures casamento. Mas, se te casares, não pecaste; e, se a virgem se casar, não pecou. Todavia estes padecerão tribulação na carne e eu quisera poupar-vos. Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; pelo que, doravante, os que têm mulher sejam como se não a tivessem” (7, 25-29). A seguir, Paulo uma segunda razão para manter-se celibatário, que consiste em que, nesta situação, somente se cuida das cousas do Senhor, e que é ainda hoje a razão mais forte para manter o celibato clerical. “Pois quero que estejais livres de cuidado, que é o motivo principal polo que se mantém o celibato no seio da igreja. “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor,  mas quem é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar a sua mulher, e está dividido. A mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor para serem santas, tanto no corpo como no espírito; a casada, porém, cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido” (7, 32-34).

No Apocalipse, 14, 3-4, livro escrito cara a finais do primeiro século, diz-se que só 144 milhares de homes celibatários, que não estavam contaminados com mulheres, foram elegidos e, portanto, serão salvados. Estes cento quarenta e quatro mil “cantavam um cântico novo diante do trono, e diante dos quatro seres viventes e dos anciãos; e ninguém podia aprender aquele cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil, aqueles que foram comprados da terra. Estes são os que não se contaminaram com mulheres; porque são virgens”. Os resgatados com o sangue de Cristo reduzem-se a 144.000 que são virgens porque não se contaminaram com mulheres. A virgindade pode entender-se como integridade física e corporal, que parece ser a autêntica, ou como pureza interior ou ausência de idolatria. Os escolhidos estão limpos já que não foram contaminados por mulheres, que é a fonte da impureza. Mas, entenda-se como pureza interior ou como integridade fisiológica, é um texto sumamente misógino.

Paulo foi o hagiógrafo neo-testamentário que tratou mais em extenso o tema da homossexualidade, e o seu posicionamento é claramente hostil e condenatório, tanto dos gays como das lesbianas, qualificando os atos homossexuais de concupiscências dos seus corações, imundícia, desonra dos seus corpos e paixões infames por ter obrado em contra da natureza humana. Na Epístola aos Romanos, 1, 24-27, escrita no ano 60, diz dos gentios: “Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si; pois trocaram a verdade de Deus pola mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém. Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. A pena que lhe deve ser infligida é a morte segundo estabelece o veredito divino no Antigo Testamento (Lev. 20, 13). “os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Rom. 1, 32). O seu destino no mundo de além-túmulo é a condena eterna. “Não vos enganeis: nem os dissolutos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbedos, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (I Cor. 1, 9-10). Na I Epístola a Timóteo, 1, 10, pseudoepigráfica, do ano 100, declara o seu autor que a lei é boa se se usar bem, e não foi instituída para o justo senão para os prevaricadores e rebeldes, entre eles os  “dissolutos, os sodomitas, os roubadores de homens, os mentirosos, os perjuros, e para tudo que for contrário à sã doutrina”. Com estes pronunciamento fica fixada com letras indeléveis e per saecula saeculorum uma doutrina profundamente misógina que vai produzir muita dor em mais da metade da população ao longo da história e da que ainda agora as mulheres lutam por desprender-se, ao tempo que as autoridades eclesiásticas, desvinculadas da sensibilidade moral dos seus próprios fieis, vivem obsessionados em manter a toda custa.

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Mulher, sexo e matrimônio em Jesus de Nazaré (II)

Eunucos polo reino dos céus

Jesus de Nazaré admitiu a castração, inclusive quando se pratica voluntariamente, se se faz por amor do reino de Deus. Quando os fariseus lhe perguntam se é lícito repudiar a mulher por qualquer causa, Jesus opõe-se em base ao que diz o Gênesis, 2, 24, de que o matrimônio é unha união na que dous ficam reduzidos a um e, em consequência, esta unidade não se pode romper. No judaísmo trata-se duma fusão por absorção e anulação da personalidade duma das partes, a mulher, que o marido pode utilizar ad libitum, a seu bel-prazer, a modo de cleanness, do que se pode prescindir, unilateralmente, quando não agrada, dando-lhe o libelo de repúdio (Dt. 24, 1). Esta conceção está longe do matrimônio como ideal comum compartido desde a igualdade e a diferença, preservando a personalidade e identidade psicofísica de cada uma das partes. Jesus, ainda que comparte a conceção judaica sobre a mulher, introduz um matiz que é a impossibilidade não só unilateral senão também bilateral do repúdio, ou seja, que nem a mulher pode repudiar o home nem o home pode repudiar a mulher, se bem não precisa o evangelista se a mulher o pode fazer em caso de adultério do varão (Mc. 10, 11-12), que sim o permite no caso do varão (Dt. 24, 1; Mt. 5, 32; Lc. 16, 18). Do cesse voluntário da convivência mútua e da forçada por unha convivência insuportável não fala porque não entrava na órbita das suas preocupações. Se Moisés -diz- concedeu licença para o repúdio foi a título provisório motivado pola dureza do coração dos judeus. Aos apóstolos parece-lhes duro que o homem não possa repudiar e casar com outra, também por outros motivos, como era habitual na sociedade judia, e, por isso, comentam-lhe que nesse caso é melhor para o homem não casar. Jesus não o nega e inclusive assente a esta formulação e recomenda veladamente que não se casem, senão que os convida a converter-se em eunucos polo reino dos céus, ainda não todos entendem isto: “Porque há eunucos que nasceram assim do ventre da sua mãe, e há eunucos que foram feitos polos homes, e há eunucos que se castraram a si mesmos por amor do reino dos céu. Quem possa entender que entendas. Quem possa entender que entenda” (Mt. 19, 12; 5, 32). Este pronunciamento de Jesus tem a sua origem nos essênios.

Jesus declara, como vemos, que “não todos entendem isto” e “quem possa entender que entenda”, que os interpretes dogmáticos passam por alto ou mal interpretam afirmando que está falando do celibato, ou da homossexualidade ou do divórcio chegando a dizer que está a falar metaforicamente da castração, como afirma Uta Ranke-Heinemann (Eunucos por El reino de los cielos, p. 34). Nenhuma destas explicações se para a pensar em quais são as razões polas quais Jesus não quer pronunciar-se, senão que deliberadamente deixa o assunto na obscuridade quando lhe seria muito fácil aclará-lo. Mas se não o faz é porque tem razões poderosas para não fazê-lo, pois, neste caso, de falar abertamente, enfrentar-se-ia com o poder do império romano que, a esta altura, proibia a emasculação pola Lex Iulia de maritandis ordinibus (18 a.e.c.), que incentivava o matrimônio e a procriação de filhos, e a Lex Papia Poppaea (9 e.c.), que castigava o celibato e a infecundidade com a incapacidade de receber heranças ou legados por parte dos celibatários. Jesus, em caso de defender abertamente a castração, estaria exposto a ser castigado polas autoridades romanas e, para evitá-lo diz que quem possa entender que entenda. Por que não fala do celibato nem da homossexualidade? Porque estas explicações são totalmente gratuitas, pois se quiser falar delas deveria utilizar as palavras pertinentes para fazê-lo e não falar do eunuquismo ou castração. Aliás, a prática da castração era muito corrente nos impérios babilônico, como assírio, persa, egípcio e no mesmo povo de Israel, como se constata por diversas passagens bíblicas. Outrossim, Orígenes e muitos bispos e patriarcas cristãos se castraram voluntariamente em base a este convite de Jesus.

Alguns autores consideram que a primeira alternativa de Jesus se refere á homossexualidade, que teria, portanto, uma origem genética, mas seria um sem sentido que Deus quiser que se condenasse a alguém, como faz Paulo e a igreja cristã com a homossexualidade, por aquilo que é natural, aquilo com o que um nasce, pois a natureza foi criada, segundo o cristianismo, por Deus e seria o próprio Deus quem castiga a sua própria obra. Por outra parte, os dous casos seguintes, especialmente o segundo, todo indica que se referem à castração em sentido literal, e haveria, em todo caso, que acarretar justificações de por que num caso tem um sentido e a seguir outro distinto. O que sim é certo é que no Império Romano, a partir do século II se aplica a palavra eunuco também a não castrados, como são os que se abstêm voluntariamente do matrimonio, mas isso não implica que se refira aos homossexuais, senão que isto obedece a uma reinterpretação em clave espiritualista do que se vinha praticando em clave literal. As leis romanas proibiam a castração e os cristãos, para não colidir com a legislação, interpretaram os textos referidos a ela em sentido espiritual. Isto é, como veremos, o que acontece na Igreja primitiva por parte dalguns dos seus seguidores enquanto que outros continuaram a defender o sentido literal e a prática emasculadora real por entender que isso foi o que defendeu Jesus. O texto que citam os defensores da referência de Jesus á homossexualidade é um do Digesto de Justiniano: O termo «eunuco» é um termo de aplicação geral, e sob ele incluem-se não somente pessoas que são eunucos por natureza, senão também os que se fizeram eunucos por esmagamento ou compressão, assim como qualquer outra classe de eunucos qualquer que for” (Tit. 16, 128). Não há nenhuma evidência que indique que os eunucos naturais são os homossexuais, e tampouco podemos afirmar que o são os da terceira classe, porque a homossexualidade não é unha opção voluntaria senão uma situação na que um está.

Os contemporâneos de Jesus seguiam as normas relativas à impureza ritual do Antigo Testamento. A Virgem, depois de superar o período de impureza de quarenta dias por ter dado luz a um menino, apresenta-se no Templo com ele para ser declarada legalmente pura polo sacerdote para assim poder tomar parte nas celebrações litúrgicas, oferecer os sacrifícios estipulados na lei, oferecer o primogénito ao Senhor e resgatá-lo mediante o pagamento de cinco siclos, porque num princípio os primogênitos estavam destinados ao culto. “Terminados os dias da purificação deles, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor (conforme está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito será consagrado ao Senhor), e para oferecerem um sacrifício segundo o disposto na lei do Senhor: um par de rolas, ou dous pombinhos” (Lc. 2, 22-24). Esta festividade de purificação celebraram-na ainda as nossas mães até os nossos dias o 2 de fevereiro, que é a  data fixada pola igreja. Fixemo-nos que o texto fala da purificação deles, em plural, e a questão que surge é saber quem são estes eles. Considero que a opinião mais acertada é referi-los a Maria, por ser impura como resultado do parto, e a Jesus porque ao estar em contato com o sangue também se contagiaria com a impureza.

Jesus contribuiu a dividir as famílias em aras duma adesão incondicional à sua pessoa, como se transluze nos seguintes versos incendiários: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”. (Mt. 10, 34-37). Jesus não se contenta com ordenar que ele deve ser preferido à própria família senão que incluso obriga a odiar a própria família para segui-lo a ele. “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 26). Este posicionamento de Jesus criou muita divisão e muita dor no seio das famílias, que, segundo ele, era o que pretendia, e, por isso, não se arreda de premiar aos que dividem as famílias sempre que se faça por ele. “todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna” (Mt.. 19, 29). Quando estudava em Salamanca, lá polo ano 1962, fui consultar-lhe, ao eminente bispo José Maria Setién que nos lecionava uns exercícios espirituais, sobre este pronunciamento de Jesus, e o único que me disse foi: «Deixa isto». Evidentemente, é difícil que uma instituição se sinta cômoda com estas declarações. Com estes antecedentes, como pode o cristianismo pavonear-se de que defende a família? Mas Jesus não se contenta com isto, senão que também ordena que renuncie aos bens aquele que quer ser o seu discípulo. “Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 33). Entretanto existem estes mandados de Jesus nos evangelhos, a igreja católica dedica-se a apropriar-se do alheio, inscrevendo a seu nome dezenas de milhares de bens que não lhe pertencem e nos que não investiu um patacão.

As relações de Jesus com a sua família não estiveram isentas de conflitualidade. Algumas respostas referidas à sua mãe e irmãos parecem pouco delicadas, pois incluso parece que se atreve a negá-los. “Enquanto ele ainda falava às multidões, estavam do lado de fora sua mãe e seus irmãos, procurando falar-lhe. Disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram falar contigo. Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt.. 12, 47-49; Mc. 3, 31-35; Lc. 8, 19-21). Strauss (Nueva vida de Jesus,c p. 231) considera que a razão pola que a mãe e os irmãos desejam falar com ele era porque a sua família punha em dúvida o seu equilíbrio mental e questionava os seus milagres: “Depois entrou numa casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal modo que nem podiam comer. Quando os seus ouviram isso, saíram para o prender; porque diziam: Ele está fora de si. E os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: Ele está possesso de Belzebu; e: é pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios” (Mc.3, 20.22). Jesus corrige um elogio dirigido à sua mãe em vez de agradecer a gentileza da mulher que lho dedica. “Ora, enquanto ele dizia estas cousas, certa mulher dentre a multidão levantou a voz e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que te amamentaste. Mas ele respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a observam” (Lc. 11, 27-28). Quando Jesus tinha doze anos sobe a Jerusalém com os seus pais para assistir à festa da Páscoa, ele ficou em Jerusalém e seus pais retornam sós crendo que o seu filho volveria com a caravana. Quando se dão conta de que não foi com os outros, dão volta e volvem a Jerusalém para encontrá-lo. Sua mãe repreende-o com ternura dizendo-lhe: “Filho, por que procedeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?”(Lc. 2, 49), o qual não deixou de chocar-lhe aos pais. Nas bodas de Canaã, quando sua mãe lhe diz que não têm vinho, responde-lhe: “Mulher, que tenho eu contigo?Jo. 2, 4). Os seus irmãos pagavam-lhe com a falta de confiança nele e nos seus milagres. “Disseram-lhe, então, seus irmãos: Retira-te daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém faz coisa alguma em oculto, quando procura ser conhecido. Já que fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem seus irmãos creiam nele” (Jo. 7, 3-5).

 

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Mulher, sexo e matrimônio em Jesus de Nazaré (I)

O mundo em que viveu Jesus

O cristianismo recebeu diversas influências, além da mais relevante que é o judaísmo e a sua expressão literária que é a Bíblia veterotestamentária, que o seu fundador conhecia muito bem e aceitava. Por isso dizia: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mt.  5, 17). Isto indica que Jesus renuncia a qualquer ruptura radical com o judaísmo e, onde não conste expressamente, devemos entender que seguia a corrente de pensamento judaica, quer a majoritária, quer a dos essênios.

Outra influência importante foi a religião dualista persa fundada por Zoroastro, o mazdeísmo, s. VI a.e.c., que teve uma grande influência no judaísmo, e, por conseguinte, também no cristianismo. Defendia um dualismo ético e metafísico, que contrapõe dous espíritos originais e auto-existentes, o deus supremo bondadoso, Ahura-Mazda ou Ormuzed, à sua antítese, o espírito do mal, Angra Mainyiu ou Arimã, ficando considerados os demais deuses como divindades secundarias; a imortalidade da alma, que será julgada após a morte. Os justos conseguirão a luz eterna; os condenados irão aos infernos, e os que compensaram as más ações com as boas, ao purgatório. Os judeus, antes do exílio, não tinham noção da retribuição individual após a morte dos defuntos. Todos, bons e maus, iam ao Sheol, conceito similar ao Hades grego, a região das sombras e da morte, a tomba coletiva de toda a humanidade falecida; Os últimos dias serão anunciados pola vinda dum messias e liberador, Saoshiant, que renovará o mundo depois da ressurreição; demonologia, taumaturgia, etc.

Em tempos de Jesus existiam quatro escolas religioso-culturais em Israel: a dos fariseus, que diziam que somente algumas cousas estão marcadas polo destino e acentuavam a observância da lei e a pureza ritual; a dos saduceus, que negam a existência do destino e que este jogue algum rol nos assuntos humanos, porque todo depende da vontade, negavam a supervivência da alma depois da morte e as esperanças escatológicas; e a dos essênios que afirmam que o destino rege totalmente a vida dos seres humanos e não existe nada que não esteja decretado polo destino e rejeitavam o culto que se fazia no templo de Jerusalém. À seita dos essênios pertenceu João o Batista e quiçá o mesmo Jesus; em todo caso, parece que foi influído significativamente por ela. Cumpre ter presente que os essênios também se conhecem como os nazarenos, porque em Nazaré havia presença essênia, ainda que menos importante que a de Jerusalém. A quarta seita era a dos zelotess, que compartiam ideário com os fariseus, mas eram exaltados nacionalistas e independistas que só aceitavam a soberania de Deus e rejeitavam pagar tributo a Roma. O conhecimento da doutrina destas escolas devemos-lho a Flavio Josefo, Guerra dos judeus e Antigüidades judaicas; Filão de Alexandria, De vita contemplativa e Hypothetica (apologia pro Iudaeis); Plínio o Velho, História natural; Eliezer ben Hircano, bYeb; e Epitecto, Diatribas ou Discursos, e aos documentos achados em Qumran.

A seita dos essênios foi fundada, ou polo menos recebeu um grande impulso, de uma personagem da que a identidade se disfarça nos escritos de Qumran com o nome de Mestre de Justiça, século II a.e.c. Embora o seu assentamento principal estava em Qumrán, também se instalaram em bairros das cidades hebreias, constituindo agrupações autárquicas, solidárias, fraternas, igualitárias, ascéticas e piedosas, integradas por homes maduros, -as mulheres e os infantes não eram admitidos. Defendiam e praticavam a abstinência sexual em aras dum fim superior, que será também uma ideia diretriz no pensamento de Jesus e da igreja. Alguns negam que Jesus fosse essênio por existir entre o cristianismo e o essenismo várias diferenças, mas, à vista das informações transmitidas polos autores citados e do descobrimento dos manuscritos de Qumran, é difícil negar o enquadramento do cristianismo dentro do judaísmo dissidente da época, e, em concreto, a sua filiação a respeito do essenismo, ainda que mantendo uma identidade própria. Dos traços que expomos a seguir, podemos detetar as profundas similitudes na mensagem entre ambos os movimentos que coincidem nas ideias força teóricas, na organização e na ética. A irmandade dos essênios estava dirigida por um grupo de doze membros; creiam que o fim do mundo era iminente com a chegada dum messias sacerdotal e militar, confiavam todo nas mãos de Deus, punham todos os bens em comum, creiam que a alma era imortal e imperecedoira e o corpo corruptível, consideravam que há que lutar sem descanso para conseguir os frutos da justiça e não faziam sacrifícios a Deus, senão que praticavam outra classe de purificações e abstinham-se do recinto sagrado do templo para fazer sacrifícios à parte. Defendem uma monogamia estrita e, em geral, não se casam, por considerar que o matrimônio é fonte de discórdias, mas adotam os meninos de outros e têm como parentes próprios os filhos que outros lhes confiam para ser doutrinados. Este desprezo do matrimônio não era comum, segundo matiza Flávio Josefo, a todos os grupos de essênios senão que existem alguns grupos que “pensam que renunciar ao matrimonio é realmente suprimir a parte da vida mais importante, a saber, a propagação da espécie; cousa tanto mais grave que o gênero humano desapareceria em pouco tempo se todos adotassem esta opinião. Tomam ás suas mulheres como ensaio, e depois que três épocas sucessivas mostraram a sua aptidão para conceber, desposam-nas definitivamente. Depois de estar embaraçadas, não têm relações sexuais com elas, mostrando assim que se casam não por prazer senão para procriar meninos” (As guerras dos judeus, Liv. II, cap. VIII, 160). Não intentam contratar escravos por julgar que é uma injustiça, repudiam os prazeres como um pecado e praticam as virtudes da temperança e da resistência às paixões. Desprezam as riquezas e praticam entre eles uma grande solidariedade, são perseguidos polas autoridades de Jerusalém e têm os seus próprios discípulos.

Tanto em Qumran como no entorno de Jesus de Nazaré (4/5 a. C.-27/28 d.C.) a presença de mulheres era muito magra, e o seu rol e protagonismo secundário, marginal, tanto na vida espiritual como social. Jesus elegeu doze homens como apóstolos e tampouco consta que entre o setenta e dous discípulos alguma mulher. Em toda a vida pública de Jesus somente há um texto antes da ressurreição que fala das mulheres seguidoras de Jesus (Lc. 8, 1-3) e nele são apresentadas como serventes, beneficiárias da sua taumaturgia e mecenas do seu apostolado: “Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, bem como algumas mulheres que foram curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens”.

Nos evangelhos narra-se o caso da hemorroíssa, que padece fluxo de sangue, que era considerado como uma impureza fruto do pecado, doença da que foi curada por Jesus e que a mantinha arredada da vida comunitária e religiosa por ser pecadora apesar de não ter cometido mal algum de forma deliberada e voluntária. Em toda a sua vida Jesus não emitiu nenhum pronunciamento favorável às mulheres que contribuísse a cambiar o seu status social de total subordinação ao homem, seguindo o estabelecido em Ge, 2. A sociedade em que vivia Jesus era profundamente machista e todo indica que ele e os seus discípulos seguiriam este sentir social, se fazemos caso ao que nos dizem os ditos ou logia que se atribuem. No Evangelho de Tomás, escrito apócrifo de mediados do s. I: “Simão Pedro disse-lhes: «Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da vida». Jesus disse: «Eu mesmo vou guiá-la para torná-la macho, para que ela também possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vós machos. Porque toda mulher que se tornar macho entrará no Reino do Céu»” (Evangelho de Tomás, 114, em Los evangelios apócrifos, BAC, Madrid,2001, p. 385). Converter-se em macho é apresentado como um desideratum, como um ideal a realizar. Jesus também dissera: “Quando fizerdes do dois um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só cousa, de forma que o macho não seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea,… então, entrareis (no Reino)” (Evangelho de Tomás, 22. Cf. Evangelho dos egípcios, em Los evangelios apócrifos, BAC, Madrid, 5.6, p. 23). Fazer do macho e da fêmea uma só cousa pode entender-se, de acordo com este pronunciamento de Jesus pola redução da mulher ao home.

Imos falar na próxima entrega da castração em Jesus, mas antes de começar cumpre lembrar as três classes de eunucos:

1ª- Os eunucos de nascimento. Os que foram vítimas de alguma anomalia genética ou dalgum trauma puerperal. Algumas destas anomalias são: a atrofia testicular; aplasia testicular, quer dizer, a ausência dum ou dous testículos; a criptorquídia, ou seja, a falta de descenso dos testículos ao escroto ou bolsa onde se alojam; ectopia testicular, se o testículo de localiza fora do seu trajeto; a monorquía, falta dum testículo; a anorquia, ou carência de testículos; torsão testicular, que impede a rega sanguínea normal; hipospádias, ou seja, o desenvolvimento anormal do pene que tem como consequência uma localização anormal do meato urinário; hipoplasia testicular, ou desenvolvimento débil dos testículos; hipogonadismo, carência de pene, micro-pene, agenesia gonadal, na que não se deteta nenhum órgão sexual, … Algumas destas malformações foram detetadas e analisadas em épocas relativamente recentes, mas não é menos certo que os seus sintomas já se conheciam e os efeitos psicopatológicos para os seus portadores deviam ser muito relevantes.

2ª.- Os que foram emasculados por outros homes. A causa da castração pode ser:

  1. a) como fruto duma rixa entre pessoas, na que acidental ou intencionadamente um resulta castrado.
  2. b) como resultado do castigo, como no caso dos cativos de guerra.
  3. c) para doação como regalo, ou para serviço sexual de personagens poderosas, como é o caso, entre outros, do eunuco e escravo persa Bágoas (s. IV a.C), castrado muito novo, que manteve relações sexuais com Dario III e Alexandre Magno. O travesti romano Esporo foi castrado por ordem de Nero, para convertê-lo na sua esposa.
  4. d) para vendê-los como escravos.

Finalmente, doutros não se conhece nem a causa da emasculação nem a função e só temos constância de que tinham a condição de eunucos.

3.- Os que se castraram a si mesmos voluntariamente, para converter-se em sacerdotes de Cibeles, Rea, Artemisa, ou adquirir um estádio mais perfeito dentro do cristianismo, seguindo o conselho de Jesus, como foi o caso da seita dos valesianos de Transjordânia, que não só se castravam eles senão que forçavam a castração dos estrangeiros em trânsito que aceitavam a sua hospitalidade. Também recomendou a evisceração Sexto, e incluso dizem que ele mesmo se teria castrado. Seguindo o conselho evangélico de Jesus de Nazaré, cara ao ano 202-203, fez-se castrar em secreto por um médico também Orígenes (185-254), por sobrenome Adamantino, natural de Alexandria, (185-254), num aceso de fanatismo religioso e para que a sua ascendência entre as mulheres não lhe criasse problemas, oito dias após a sua conversão ao cristianismo, quando tinha 18 anos de idade. Também se castraram muitos bispos e patriarcas da igreja oriental e também se castravam os meninos selecionados para cantar na Capela Sistina.

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Mulher sexo e matrimônio no Antigo Testamento (II)

A inferioridade da mulher

O povo hebreu praticava a poligamia, sendo o exemplo mais eloquente o de Salomão que teve 700 mulheres e 300 concubinas (I Re. 11, 3), entre as quais eram frequentes as rixas. A Bíblia considera a mulher como um ser inferior sob a total dependência do home (Ex.. 20, 17), e condena em termos enérgicos como escravidão, ignomínia e vergonha que a mulher domine ao varão (Eclo. 25, 29-30; 9, 2-13), enquanto que considera normal e incluso prescreve que o varão domine a mulher (Gên. 3, 16). Além de inferior, a mulher é um ser malévolo, enquanto que o homem é bom e ingênuo. “E eu achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são laços e redes, e cujas mãos são grilhões; quem agradar a Deus escapará dela; mas o pecador virá a ser preso por ela” (Ecl. 7, 26). A mulher estranha, “como o salteador, se põe a espreitar; e multiplica entre os homens os prevaricadores” (Prov. 23, 28).

O matrimônio em Israel era endogâmico num sentido amplo, evitando os intercâmbios genéticos com membros das nações vizinhas com a finalidade de manter a homogeneidade cultural, ainda que esta norma fosse conculcada com certa frequência; é patrilinear, ou seja, que a pertença a uma determinada família se determina pola linha paterna; e com direito de primogenitura para o morgado ou primogénito, seja filho da mulher preferida ou da aborrecida (Dt. 21, 1517), que inclui a representação da linhagem, benção paterna e o grosso da herança, enquanto que os demais irmãos ficam como os seus servos ou escravos ou são despedidos da casa paterna; virilocal, quer dizer, que os varões acarretam mulher para a sua casa, selecionada no âmbito da parentela mais próxima por linha paterna, se bem evitando cair em situações consideradas normativamente incestuosas. O pai dispõe ao seu arbítrio do futuro das fêmeas. Pode dar a filha em casamento em contrapartida dum dote, o qual representa uma compra dissimulada para família do esposo; vendê-la como esposa (I Sam. 18, 25-27), como Mical filha de Saul, ou como escrava e concubina (Ex.. 21, 7-7; Dt. .22, 29-30); ou pode forçar-se o matrimônio por sedução ou violação por parte dum varão duma mulher não desposada que obriga o infrator a casar com a sua vítima, ainda que terá que dotá-la e não poderá repudiá-la. O pai pode fazer também de intermediário na compra de mulheres para os seus filhos, como fizeram os pais de Sansão. Este “vendo em Timnate uma mulher das filhas dos filisteus, subiu, e declarou-o a seu pai e a sua mãe, dizendo: Vi uma mulher em Timnate, das filhas dos filisteus; agora pois, tomai-a por mulher. Responderam-lhe, porém, seu pai e sua mãe: Não há, porventura, mulher entre as filhas de teus irmãos, nem entre todo o nosso povo, para que ti vás tomar mulher dos filisteus, daqueles incircuncisos? Disse, porém, Sansão a seu pai: Toma esta para mim, porque ela muito me agrada” (Juízes, 14, 1-3). Como vemos, seus pais põem reparos de caráter religioso e cultural por considerar que rompem a homogeneidade da população, além de que se tratava dum povo com o que Israel tinha frequentes enfrentamentos bélicos, e, seguramente não estaria bem visto pola população tal intercâmbio. À mulher, pola sua parte, não lhe fica capacidade nenhuma de iniciativa, senão que se vê obrigada a aceitar as transações realizadas por outros às suas costas.

A mulher sempre esteve submetida ao poder do varão; de solteira é uma propriedade mais do pai, à par doutros bens como podem ser os animais, parcelas,… e de casada é propriedade do esposo, ao mesmo nível que os bois e asnos (Ex. 20, 17; Dt.5, 21). O relato do Gênesis apresenta a mulher como um ser provocador que, devido à sua ousadia em induzir o homem ao pecado, foi castigada por Deus a ser dominada polo varão, parir filhos com dor e reabilitar-se só pola procriação. Nunca um relato causou tanto dano a mais de meia humanidade. A inferioridade da mulher consolidava-se socialmente com a adoção de medidas econômicas e de limitação da sua capacidade de toma de decisões, além de polo trato recebido. As terras eram de Javé e os seus possessores eram peregrinos e estrangeiros nela. Se alguém vender parte da sua propriedade, sempre pode resgatá-la e, em todo caso, a propriedade volve a ele no ano jubileu, que se celebrava cada cinquenta anos (Lev. 25, 8-22), salvo se se trata duma casa amuralhada na cidade que, se não se resgata durante o ano da sua venda, já ficará para sempre para o vendedor (Lev. 25, 23-38). Se um home deixa filhos ao morrer, as filhas não herdam nada (Num.. 27, 8-10). O filho primogénito herdará dobre porção que os outros (Dt.. 21, 17). Se não havia filhos varões, herdariam as filhas e se não há herdeiros diretos herdarão os irmãos; se tampouco há irmãos, os irmãos do pai, parentes mais próximos da família (Num. 27, 8-11), e finalmente, os escravos (Gên. 15, 2-3). Deste modo garante-se a exclusão socioeconômica da mulher que se reforça por uma ideologia de gênero, perpetuando assim a sua minoria de idade, santificada pola palavra da mesma divindade.

A mulher não podia fazer um voto se não obtinha previamente o permisso do seu pai ou do seu marido, que são os responsáveis do seu cumprimento. (Num. 30, 1-16), e, num relato do Gênesis. as próprias filhas são postergadas inclusive frente a dous supostos «varões» estranhos à família, que quiçá fossem duas deidades menores ou, segundo a maioria dos autores, dous anjos. Abraão convida-os a comer, tanto a eles como a Javé, na sua casa, convite que eles aceitam, se bem o relato do hagiógrafo não explica como seres pretensamente espirituais podem comer. Quando dous dos «varões», anjos ou deidades menores, chegam a Sodoma, Ló dá-lhe hospedagem na sua casa, que eles aceitam. Mas, dado que se concitam vários concidadãos moços e velhos diante da casa, decididos a manter relações sexuais com eles, Ló roga-lhe que não procedam tão perversamente e oferece-lhe como alternativa “duas filhas que ainda não conheceram varão, eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado” (Gên. 19, 8), ainda que tampouco precisa como dous anjos ou deuses necessitam dormir e como podem realizar sexo com seres humanos. É improcedente justificar esta ação, como fazem alguns autores, dizendo que tomam forma humana, porque uma forma de ser humano não come, senão um home humano normal. Aliás, tanto um anjo como um deus com sentido deveria impedir que se buscassem alternativas bárbaras como a de violar mulheres. Causavam muito menos mal violando as formas humanas que as pessoas humanas reais. O relato é todo um despropósito. Se bem é correto procurar que os hóspedes não sofram nenhum dano, o remédio nunca pode ser oferecer-lhe as próprias filhas, e muito menos com a consigna de que façam com elas todo o que lhes parecer. A solução bárbara que oferece Ló é a mesma que a que oferece um ancião de Gueba que dá pousada a um levita forasteiro que vai de Belém de Judá para a sua casa acompanhado da sua concubina. Quando os habitantes de Judá lhe dizem ao ancião: “Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos. O dono da casa saiu a ter com eles, e disse-lhes: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais essa loucura. Aqui estão a minha filha virgem e a concubina do homem; fá-las-ei sair; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais tal loucura” (Juízes, 19, 22-24). Conheçamos significa o mesmo que tenhamos sexo. Isto significa que o ancião lhe oferece a sua filha e a concubina do próprio levita para que as desonrem, com preferência a que mantenham relações homossexuais com o seu convidado, com a consequência de que lhe dão morte à concubina, e sem que se manifeste sinal nenhum de reprovação por este crime. Entre salvar o honor dos hóspedes ou o das filhas, Ló opta por defender o levita e manter o seu honor como hospedeiro em vez do seu honor como pai. Um pergunta-se como se podem considerar como inspirados por Deus uns livros que narram semelhantes atrocidades e que ideologia da família se pode fundamentar neles.

A legislação mosaica era sumamente dura e estabelecia penas desproporcionadas para com aqueles que contravinham os seus preceitos referentes à moralidade sexual e reprodutiva. Se um homem tem relações com a esposa de seu pai, com a sua nora, ou com outro homem, devem morrer todos eles. Quem tomar uma mulher e mãe dela serão queimados vivos os três (Lev. 20, 11-14). A mulher que tiver sexo com uma animal cumpre dar morte aos dous (Lev. 20, 15). Se um homem for colhido jazendo com uma mulher casada deverá dar-se morte a ambos (Dt. 22, 22). Se um homem força a uma virgem desposada e se deita com ela na cidade cumpre lapidá-los aos dous; a mulher por não ter gritado na cidade e o home por ter desonrado a mulher do seu próximo (Dt. 22, 23-24). Se o sucesso tem lugar no campo, somente morrerá o homem, pois não há nela reato de morte, ou seja, motivo para matá-la enquanto que a gente não podia ouvi-la. A violação é considerada, além dum delito contra a mulher, uma afronta para a família, que deverá ser vingada por esta com a morte dos membros varões da família afetada (Gen.. 34, 31, e 34, 25-26). O adultério também está castigado com a pena de morte e em caso de que a adúltera fique embaraçada é queimada viva tanto ela como a criatura (Gên.. 38, 24), e castiga com a pena de morte aos dous se um home jaze com uma mulher casada (Dt. 22, 20-21);A Bíblia condena a violação das virgens não desposadas com a obrigação de casar com ela, o qual pode muitas vezes ser mais um prêmio que um castigo (Ex. 22, 15-16; Dt.  22, 28-29); igualmente devem morrer aos que praticam o  coito interrupto, como foi o caso de Onã (Ge.  38, 6-10); a homossexualidade (Lev. 20, 13; Ge. 19, 5; Lev.18, 22); e se penaliza também o travestismo (Dt. 22, 5). Não existe nenhuma norma a respeito das lesbianas.

Os matrimônios com tribos limítrofes estavam proibidas porque entendiam que isto danava a pureza cultural de Israel e incitava os seus habitantes a que se prostituíssem adorando os deuses doutros povos, o qual provocava a ira do zeloso deus Javé contra o próprio povo hebreu. De ai que quando um israelense introduz na sua tenda uma mulher madianita, Finés, filho do sumo sacerdote Eleazar decide tomar a justiça pola própria mão e tomando uma lança alanceou aos dous, acalmando assim a ira de Javé, que cessa deste modo a misteriosa praga na que morreram 24.000 israelenses (Num. 25, 6-9). É tal a brutalidade da ação que não há ética digna de tal nome que possa explicá-la racionalmente, mas isto não foi óbice para que Eleazar fosse recompensado com o sacerdócio eterno (Num. 25, 10-13). Em caso de vitória num conflito armado, as mulheres dos vencidos pagavam com a própria vida as consequências da guerra, igual que os varões adultos e os mesmos meninos, se bem as virgens eram tratadas dum jeito mais benevolente e eram reservadas como botim para os vencedores, o resto da comunidade e para Iavé. Eis o que diz os Números da guerra contra os madianitas: “Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós” (Num. 31, 17-18). Nesta guerra, das virgens, a metade, dezesseis mil, foi para os combatentes, salvo trinta e duas que foram para Javé; e a outra metade foi para os membros da comunidade (Num. 31, 40 e 46). Quando se diz que trinta e duas eram para Javé cumpre entender para os sacerdotes ou levitas. Em caso de empreender ações bélicas, a sorte dos vencidos depende se se trata de nações exteriores ou dos povos cananeus. No primeiro caso, os homes devem ser passados polo fio da espada e as mulheres e meninos tomados como botim, mas nas cidades tomadas aos cananeus deve matar-se a todo o que respira: “das cidades destes povos, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nada que tem fôlego deixarás com vidaDt. 20, 16), e, portanto, devem matar-se a todos os seres humanos e a todos os animais, mas se um combatente acha uma mulher formosa pode tomá-la por mulher (Dt. 21, 11). Os hebreus aspiravam a conquistar os povos limítrofes e criaram a mística de que Deus lhos deu em herança, e isso justificava que se pudessem cometer contra eles as maiores atrocidades.

A legislação mosaica concede-lhe ao varão a faculdade de romper dum jeito unilateral o vínculo matrimonial, deixando a mulher totalmente indefensa. O modo de fazê-lo é dar-lhe uma carta manifestando-lhe o esposo que a rejeitava ou repudiava, e que agora alguns pretendem suavizar utilizando a palavra divórcio que somente indica dissolução do vínculo matrimonial. “Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se ela não achar graça aos seus olhos, por haver ele encontrado nela cousa vergonhosa, far-lhe-á o libelo de repúdio e lho dará na mão, e a despedirá de sua casa” (Dt.. 24, 1). Os motivos para o despedimento podem ser, segundo a escola de Hillel, nímios, como que se lhe queimasse a comida, se bem pode refazer a sua vida com outro casando com outro homem. Outro dos motivos para o repúdio da mulher, também unilateral, é a acusação de perda da virgindade da mulher com a conseguinte obrigação por parte da mulher de demonstrar que é inocente, apresentando, como prova da sua virgindade, as savanas ensangüentadas (Dt. 22, 13-21),  o qual pode condenar por lapidação a pessoas inocentes, pois o hímen pode rasgar-se polo exercício, pôr ou quitar tampões, masturbar-se, sem que a pessoa afetada seja consciente deste contratempo, ou que a mulher careça dele de nascimento.

A virgindade era concebida no Antigo Testamento como uma preservação da mulher para o marido antes do matrimônio e como um incentivo para as apetências do varão (Ge. 34, 7.31; 24,16; Jz. 19,24), mas sem que exista uma medida simétrica para o este. A donzela que perdia a sua virgindade diminuía o seu prezo de casamento (Ex. 22, 15-16; Dt.  22, 14-19), e era objeto da penalização legal sancionada com a pena de morte por lapidação (Dt.. 22, 20-21), e, em todo caso, à perda da sua honra (II Sam. 13, 2-18; Lm, 5,11; Si, 7, 24; 42, 9-11). Os sacerdotes somente podem casar com uma virgem, e não com uma mulher já «desgastada» por coitos repetitivos. Como vemos, gerentes de Deus na terra já gozavam de privilégios em Israel e é humano que, se lhe deixam, desejem mantê-los.

 

 

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Mulher, sexo e matrimônio no Antigo Testamento (I)

A menstruação, parto e sexo como pecados

No Antigo Testamento, a sexualidade tem como finalidade a procriação, considerada como uma benção divina, enquanto que a esterilidade era considerada como um estigma para a mulher estéril. Para facilitar que todo matrimônio tiver descendência, promulgou-se a lei do levirato, que estipulava que, se um marido morre sem deixar descendência, o seu irmão tem que desposar a viúva do defunto (DT. 25, 5-6). Também ajudava a cumprir a função procriativa a poligamia, que lhe permitia a uma mulher dar-lhe descendência a um marido por outra mulher interposta com a que o marido podia copular. A partir do século II a.e.c. considera-se que o reto uso da sexualidade é superior ao valor da procriação; viver castamente é superior a ter filhos. Por isso se louva o eunuco e se prefere a mulher piedosa e estéril à adúltera, ainda que não entra na questão de por que existem pessoas que são convertidos por outros em eunucos nem tem uma só palavra de reivindicação da desaparição desta prática. “Ditosa a estéril sem macula, a que não conhece leito de pecado; terá o seu fruto na visita das almas. Ditoso também o eunuco que com as suas mãos não obra iniquidade nem fomenta pensamentos perversos contra o Senhor; pola sua fidelidade se lhe dará uma escolhida recompensa, uma herança muito agradável no Santuário do Senhor. Que o fruto dos esforços nobres é glorioso, imperecedoira a raiz da prudência. Em câmbio os filhos de adúlteros não chegarão à sazão, desaparecerá a raça nascida duma união culpável” (Sab. 3, 13-16).

A mulher não foi objeto direto da criação pois Deus somente visava criar o varão, mas, para corrigir o seu despiste, que não preveu o problema da soledade de Adão só entre todos os demais animais, teve que completar a obrar para curar a sua saudade, e, com esta finalidade, criou a Eva de uma costela de Adão. Como vemos, não necessitou utilizar as leis biológicas nem o carbono como elemento das biomoléculas nem acudiu à clonagem para fazer a Eva a partir de células mãe ou outras senão que toma diretamente uma parte do corpo de Adão que total só ficou com uma costela menos (Gen.. 2, 20-22). A sua função é entreter e ajudar a Adão, mas resultou-lhe uma companheira corruptora, cheia de lascívia, que afaga o homem e o desvia do caminho traçado pola divindade (Prov. 5,3; 6, 24-25; 7, 10, 19; Eclo. 9, 3-4; Ecl. 7, 26), o qual tem como consequência o maior castigo que recordam os séculos, que não afeta só a ela, mas também a toda a sua descendência: parir com dor e ser submetida ao varão, que vai reprimir fortemente a manifestação da sua sexualidade como castigo de desagravo a ele por tê-lo conduzido pola senda do mal. A manifestação mais sobranceira desta repressão é a mutilação genital para que a mulher não sinta prazer no ato sexual. O castigo do varão consiste em comer em fadiga da terra todos os dias da sua vida por ter escutado, como um ingênuo, a voz da sua mulher (Gen. 3, 17). O submetimento ao varão teve como resultado que a mulher perdeu toda capacidade de pensar e atuar dum jeito autônomo.

A ignorância perante certos fenômenos e a surpresa e curiosidade que causam na mente humana conduziu os seres humanos a dar-lhe respostas, num início insatisfatórias, infantis, não fundamentadas, cuja origem se perde na noite dos tempos, com objeto de controlá-los e dar-lhe sentido. Mas o que fez o chamado «autor sagrado» é pôr essas respostas na boca de Deus, sacralizá-las, estereotipá-las e transmiti-las às gerações futuras como se fosse a palavra da própria divindade. Agora os intérpretes dogmáticos, que têm como função acomodar a realidade sócio-histórica aos seus preconceitos dogmáticos, intentam justificar as incongruências da chamada revelação divina alegando que Deus se acomodou à mentalidade e à conceção tribal do hagiógrafo. Utilizam, pois, o princípio hermenêutico da acomodação de Deus a ideias atávicas, atribuindo-lhe uma atitude indigna que é a de acomodar-se a relatos falsos que o autor apresenta como palavra divina, pondo-os na própria boca do Altíssimo, induzindo os leitores a que creiam que são verdadeiros, e sem ter maneira de distinguir o verdadeiro do falso. Se Deus sabe e não quiser instruir as pessoas, seria um ser malévolo, mas é muito pior fazer passar como palavra divina o que é somente uma crença ancestral.  Nos relatos bíblicos que imos ver uma série de funções orgânicas, como a menstruação, em vez de ser tratadas desde o ponto de vista higiênico-sanitário, passam a ser consideradas desde o ponto de vista moral e religioso, e, portanto, como fruto duma decisão divina e fonte de contaminação para o exercício de cargos relacionados com o sagrado. Vários atos que são puramente funções fisiológicas são qualificados como impuros, e, como impureza religiosa, a purificação tem que ser submetida a certos ritos executados polo sacerdote, que tinham como finalidade purificar a pessoa impura e permitir-lhe reintegrar-se de novo na vida pública, tanto civil como religiosa, da que fora excluído pola sua impureza. Aliás, a impureza é considerada como pecado e a esterilidade (Gen.e 20, 17-18) e a doença são consideradas como consequência do pecado, que tem a virtualidade de cambiar as leis naturais, crença também presente em Jesus de Nazaré, e, portanto, a purificação deve incluir, além dum holocausto de reconhecimento e homenagem a Deus, um sacrifício de expiação para anular o pecado, para contentar a um Deus ávido de sangue tanto doutros animais como do ser humano. Além mais, os atos de purificação constituem uma fonte importante de ingressos para as arcas clericais obtidos dos sacrifícios oferecidos, teoricamente, a Javé.

Determinadas condições fisiológicas, como a lepra, a sarna ou a tinha (Lev. Caps. 13 e 14), o parto (Lev. 12,1-8), os nascidos Jó.25, 4,… são considerados como fonte de impureza: “como pode ser puro o nascido de mulher” (Jó, 25, 4), “Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sal. 51, 5), enquanto fruto dum ato sexual e dum parto acompanhado de emissão de sangue. Igualmente certas emissões genitais, como o sémen masculino e a menstruação feminina; emissões sanguíneas, como as hemorragias; e secreções causadas pola bactéria da gonorreia, uretrite gonocócica, eram, em Israel, fonte de impureza, de contaminação, de mancha, para a pessoas afetadas. Eram também fonte de contaminação para os demais, porque também eram impuras as pessoas que estavam em contato com o doente, ou pessoas que mantiveram relações sexuais com ele, e, portanto, precisavam ser purificadas, chegado o caso, perante o sacerdote. Também são impuros os que tocam a pele ou o cadáver de animais (Lev. 11, 24-40) ou de seres humanos mortos (Núm. 19, 10-22). Toda pessoa impura se se achegar aos lugares sagrados, como o templo, pode degradar a sua santidade e a dos objetos sagrados que ali se contêm, que vai constituir um motivo de marginação capital para a mulher. Os da estirpe de Arão que tivessem lepra ou fluxo seminal ao poderão comer das cousas sagradas (Lev. 22, 4-5).

O mero feito de parir é causa de impureza, o qual não deixa de surpreender porque Deus quer que os seres humanos tenham muita descendência: “frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a” (Gen.  1, 28), e não existe outro meio de procriar que por meio do ato sexual. A impureza é maior no caso das fêmeas que dos varões, e, consequentemente, a necessária purificação era também distinta para os dous sexos, mais dilatada no tempo no caso das fêmeas, o qual implica que parir uma menina polui mais a mãe, que pode interpretar-se como um castigo por dar a luz uma menina, que era considerada um ser inferior, ou porque a menina tem, segundo a medicina antiga, um desenvolvimento mais tardio, contrariamente ao que defende a psicologia atual. “Se uma mulher conceber e tiver um menino será imunda sete dias; assim como nos dias da impureza da sua enfermidade, será imunda. E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio. Depois permanecerá ela trinta e três dias no sangue da sua purificação; em nenhuma cousa sagrada tocará, nem entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação. Mas, se tiver uma menina, então será imunda duas semanas, como na sua impureza; depois permanecerá sessenta e seis dias no sangue da sua purificação. E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação, seja por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado, à porta da tenda da revelação, ao sacerdote, o qual o oferecerá perante o Senhor, e fará, expiação por ela; então ela será limpa do fluxo do seu sangue. Esta é a lei da que der à luz menino ou menina. Mas, se as suas posses não bastarem para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos: um para o holocausto e outro para a oferta pelo pecado; assim o sacerdote fará expiação por ela, e ela será limpa” (Lev. 12, 2-8). Quando a mulher está impura, todo aquilo sobre o que ela se deitar ou do que ela tocar será imundo; assim como todo aquele com que tenha relações sexuais ou lhe tocar ou tocar o seu fluxo de sangue ou entrar em contato com o que ela tocasse. A purificação da mulher dura 40 dias no caso do nascimento dum varão e oitenta se nasce uma mulher, diferença quiçá devida a que a mulher era considerada inferior e a mãe era, em certo modo castigada por dar a luz uma filha.

Outra causa importante de impureza é a menstruação da mulher. “Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o fluxo na sua carne for sangue, ficará na sua impureza por sete dias, e qualquer que nela tocar será imundo até a tardeLev.. 15, 19). Todo aquilo sobre o que ela se deitar, sentar e toda pessoa que tocar cousa alguma sobre o que ela estiver sentada ou deitada, ou tocar o sangue, será causa de impureza. Depois do fluxo há que contar sete dias para que fique limpa. (Lev. .15, 20-30). O homem que se deite com uma mulher durante o período menstrual será imundo por sete dias (Lev.15, 24). Igual que o parto, a menstruação era considerada como pecado e, portanto, a mulher cumpre levar dous pombinhos ao sacerdote, para que ofereça um polo pecado e outro polo holocausto. (Lev.  15, 29-30). Alguns dizem que no caso da menstruação ou da polução noturna não seria pecado, mas isto vai contra do que diz expressamente a Bíblia de que têm que oferecer um animal em holocausto, ou seja, em homenagem e reconhecimento a Deus, e outro polo pecado. Aliás, Javé diz que o homem justo não se acercará à menstruada (Ez.  18, 6); o obrar de Israel quando morou na sua terra foi como “imundícia de menstruadaEz.. 36, 17).

Como a mulher tem um fluxo sanguíneo mensual de vários dias, nos que ela contamina todo o que toca e o que ou quem lhe toca, a conceção da menstruação como algo impuro supôs para ela uma fonte de discriminação social e religiosa que se prolongou historicamente no tempo até os nossos dias. Por ser impura não pode tocar os objetos sagrados e, por conseguinte, não pode ter nenhum rol relevante. na igreja.

A impureza também se dá no homem, mas não teve repercussões tão negativas como no caso das mulheres, por ser esta ademais considerada como um ser inferior. O homem volve-se impuro, além de pola gonorreia, polo fluxo de sangue e quando o seu sêmen é expelido, quer numa relação sexual normal (Lev. 15,18), quer involuntariamente, como no caso da polução noturna (Dt.. 9, 11), num estado normal ou em caso de doença.  “Disse ainda o Senhor a Moisés e a Arão: Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes: Qualquer homem que tiver fluxo da sua carne, por causa do seu fluxo será imundo. Esta, pois, será a sua imundícia por causa do seu fluxo: se a sua carne vasa o seu fluxo, ou se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia” (Lev.. 15, 1-3). A cama em que se deitar um impuro, e todo aquilo em que se sentar ou que tocar o impuro converte-se em impuro Toda emissão de sêmen, incluso a involuntária, converte o homem em impuro. “Também se sair de um homem o seu sêmen banhará o seu corpo todo em água, e será imundo até a tarde.” (Lev.15, 16). Toda relação heterossexual na que se produz derramamento de sêmen é impura e ambos têm que lavar-se e ficarão impuros até a tarde (Lev. 15, 18). Se o fluxo se produz por doença, a impureza dura enquanto dure a doença, e uma vez curado do fluxo contará sete dias para a sua purificação, lavará as suas vestes e banhar-se-á em augas vivas (Lev. 15, 13). Ao oitavo dia, apresentar-se-á perante o sacerdote e lhe entregará duas rolas ou dous pombinhos que os oferecerá um para holocausto e o outro polo pecado. E o hagiógrafo conclui: “Esta é a lei daquele que tem o fluxo e daquele de quem sai o sêmen de modo que por eles se torna imundo; como também da mulher enferma com a sua impureza e daquele que tem o fluxo, tanto do homem como da mulher, e do homem que se deita com mulher imunda” (Lev. 15, 32-33).

Esta conceção misossexual teve um efeito muito negativo sobre o sexo, que se   considerou em si como algo sujo, contaminante e pecaminoso, desvalorizando-o e reduzindo-o a um mero instrumento para a procriação, perdendo a função de expressão do amor e complementaridade entre os sexos, presente já nos elos mais elevados do desenvolvimento filético dos demais animais. A sexualidade humana é uma sexualidade criativa, cultural, que, igual que acontece no caso dos chimpanzés bonobos, ou pan paniscus, que é a espécie animal mais parecida aos seres humanos, não se desencadeia só polas hormonas, polo zelo da fêmea, senão também por outros fatores como o prazer, e a excitação perante estímulos visuais, tácteis, olfativos, linguagem, etc. Isto tem como consequência que a fêmea é receptiva em qualquer momento do dia ou do mês, enquanto que as fêmeas doutras espécies de animais mamíferos, salvo os humanos e os bonobos, só copulam durante o período anual ou mensual de estro. O sexo, como expressão do amor entre seres humanos, deve ser o que estes desejem e não o que lhe interesse a uma hierarquia religiosa misógina e misossexual, ávida em legislar sobre o que devem fazer na cama os esposos, apesar de ser leiga, polo menos teoricamente, na matéria e de que ficou fortemente desautorizada polas decisões que tomou ao longo da história. Tanto no ser humano como nos bonobos as relações sexuais são muito frequentes e reiterativas e não estão ligadas diretamente só à procriação senão também ao prazer. A diferencia doutros primatas, como os bonobos, o ser humano prática a violência sexual com a fêmea, igual que sucede com os chimpanzés pan trogloditas, e o macho pode violar a fêmea, enquanto que noutras espécies de primatas, o macho não se impõe à fêmea, senão que tem que persuadi-la. Os chimpanzés pan trogloditas e os pan paniscus são promíscuos ou polígamos, mas diferenciam-se em que os primeiros utilizam a violência física sobre as fêmeas, tanto sob a forma de ameaças, brandindo ramas de árvores, como real, ameaçando-as, perseguindo-as e golpeando-as para obrigá-las a acasalar-se exclusivamente com quem exerce a violência e desista de fazê-lo com os seus contendores, para assim garantir a sua descendência. Também se diferenciam em que os machos pan trogloditas praticam o infanticídio para apurar de novo a receptividade da fêmea. Os machos mais agressivos com as fêmeas são os que têm mais probabilidades de copular com elas e garantir assim a sua descendência, o qual indica que a violência tem êxito. O único primata monógamo é o gibão enquanto que o ser humano praticou historicamente tanto a poligínia como, em menor medida, a poliandria, com uma tendência crescente a uma monogamia sucessiva, como mais acorde, junto com a monogamia estrita, com os direitos dos dous membros da parelha.

Finalmente, dizer que a impureza ritual não era privativa de Israel senão que estava presente na cultura greco-romana, contaminando a própria mulher e também os que entram em contato com ela. Diz, a respeito das consequências do sangue menstrual, Plínio o Velho: “Dissemos muito desta violência (violenta descarga da menstruação), mas além disso, é certo que as abelhas fogem com toques (destas mulheres) nas colmeias; os vestidos de linho, quando se cozem, volvem-se negros; o fio cega nas navalhas dos barbeiros; o cobre com o contacto toma um veneno forte de mal-odor e óxido, especialmente se isto acontece na lua minguante; as éguas, se estão prenhes, abortam se se lhes toca, e incluso pola mirada (destas mulheres) ainda vistas de longe, se é a primeira menstruação após a (perda da) virgindade ou se permanece virgem e menstruou pola primeira vez” PLINIO O VELHO, História natural, livro 28, cap. 23, 78-79). Como vemos, este é um relato totalmente inaceitável, mas existe uma diferença radical entre ambos casos, que consiste em que os relatos bíblicos são apresentados como inspirados por Deus e, portanto, como pautas de conduta que todos os crentes devem acatar em todo tempo sem ousar pô-las em questão, enquanto que as os relatos da cultura greco-romana e as suas normas de conduta não se propõem como obrigatórios para ninguém e qualquer pessoa é livre de crê-los como válidos ou não e de acatar ou não as suas normas, e pretender que há que há que seguir a Plínio ou a qualquer outro soa a autêntico despropósito porque frearia o devir racional da humanidade, que foi o que sucedeu historicamente com os relatos bíblicos.

 

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